domingo, 29 de agosto de 2010

- a dor na ausência.

"Queria ser outra vez ela mesma, recuperar tudo que tivera de ceder em meio século de uma servidão que a fizera feliz, sem dúvida, mas que uma vez morto o marido não deixava a ela nem traços da sua identidade. Era um fantasma numa casa alheia que de um dia para outro se tornara imensa e solitária, e na qual vagava à deriva, perguntando a si mesma angustiada quem estava mais morto: o que tinha morrido ou a que tinha ficado.
Não podia afugentar um recôndito sentimento de rancor contra o marido por havê-la deixado só no meio do oceano tenebroso. Tudo que era dele a fazia chorar: o pijama debaixo do travesseiro, os chinelos que sempre lhe pareceram de doente, a recordação de sua imagem se despindo no fundo do espelho enquanto ela se penteava para dormir, o cheiro de sua pele que havia de persistir na dela muito tempo depois da morte.
Parava no meio de qualquer coisa que estivesse fazendo e dava um tapinha na própria testa, porque de repente se lembrava de alguma coisa que esquecera de lhe dizer. A cada instante lhe vinham à mente as tantas perguntas cotidianas que só ele podia responder. Certa vez ele dissera algo que ela não podia conceber: os amputados sentem dores, cãibras, cócegas, na perna que não têm mais. Assim se sentia ela sem ele, sentindo que ele estava onde não mais se encontrava."


* O amor nos tempos do cólera, por Gabriel García Márquez, publicado em 1985.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Meu estranho preferido, por K.

Não consigo lembrar de todos os outros, mas lembro de tudo absolutamente relacionado a você e a nós dois. Não me refiro a lembrar do que foi dito ou feito, mas da forma como nos fizemos sentir. Lembro de todas as sensações, como se a letra da minha música favorita fosse e talvez essa seja a maneira mais formidável de se recordar um grande acontecimento... um grande marco. Hoje, depois da promessa de odiarmos um ao outro pro resto da vida, constato que, de tudo, o que fica é muita saudade.

- E, acredite, a gente só sente saudade do que foi bom. Do que nos tocou e fez sentir especiais em todo o nosso potencial.


A vida não pára e, à altura em que chegamos, você se tornou meu estranho preferido: aquele de quem não consigo afastar meus pensamentos e preces. Aquele que me permite sentir saudades do passado que colorimos em tons tão alegres e otimistas. Por quem meu coração bateu tão mais forte. Com quem fiz tantos planos e sonhei acordada. Aquele que me alimenta de lembranças vivas só em mim. O quão triste, então, deve ser amar um estranho? Um fantasma preso às minhas melhores memórias amorosas?
A resposta pra essas duas perguntas é deploravelmente triste na maioria de seus aspectos, mas ter conseguido conviver com ela me faz, além de fracassada em dias melancólicos, alguém forte por não ter sucumbido à loucura e ao pessimismo crônico. 
Apesar de tudo, na maior parte do tempo consigo manter meu otimismo intacto e uma pessoa decente faz isso. Mostra-se forte se consolando com o seu melhor: bons referenciais e boas sensações colhidas dos momentos que a fizeram acreditar que é feliz e que, principalmente, tem motivos pra isso.
Por outro lado, uma pessoa decente não se conforma em viver de lembranças ou referenciais senão quando em dias melancólicos de fracasso. Escrever em dias assim é particularmente doloroso, mas particularmente catártico e, portanto, me desculpem se tento me mostrar uma otimista incurável. O que provavelmente me caia como belo remédio seja um ajuste de expectativas. Afinal de contas, o quão mais tenho de esperar por você pra que, enfim, tome meu banho de água fria e perceba que o que aconteceu no passado, pertence ao que nele ficou?
Nesse exato momento me parece que quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais e o lamentável é querer me livrar do vício que é, ainda assim, querer esperá-lo. Essa é a escolha mais difícil: abrir mão, mesmo reconhecendo a dependência, e seguir em frente ou, repleta de uma teimosia quase burra, acreditar que o meu-nosso amor é capaz de fazer o que queiramos que ele faça. 

Esperar pelo dia em que poderei conhecê-lo de novo me parece uma espera solitária demais pra que eu siga agüentando. Esperar por (re)conhecer meu estranho preferido me faz vestir que espécie de carapuça? Talvez a dos fracos, por me deixar submeter à tamanha dependência. Talvez a dos fortes, por acreditar tanto nos alicerces que construímos. De qualquer forma, apesar de reconhecer que nossas lembranças e nossa história são o que nos define, ao lado de minhas perguntas com respostas esquivas, a que ocupa a maior parte das minhas reflexões é: 


- será mesmo que você vale todo o esforço?