Não consigo lembrar de todos os outros, mas lembro de tudo absolutamente relacionado a você e a nós dois. Não me refiro a lembrar do que foi dito ou feito, mas da forma como nos fizemos sentir. Lembro de todas as sensações, como se a letra da minha música favorita fosse e talvez essa seja a maneira mais formidável de se recordar um grande acontecimento... um grande marco. Hoje, depois da promessa de odiarmos um ao outro pro resto da vida, constato que, de tudo, o que fica é muita saudade.
- E, acredite, a gente só sente saudade do que foi bom. Do que nos tocou e fez sentir especiais em todo o nosso potencial.
A vida não pára e, à altura em que chegamos, você se tornou meu estranho preferido: aquele de quem não consigo afastar meus pensamentos e preces. Aquele que me permite sentir saudades do passado que colorimos em tons tão alegres e otimistas. Por quem meu coração bateu tão mais forte. Com quem fiz tantos planos e sonhei acordada. Aquele que me alimenta de lembranças vivas só em mim. O quão triste, então, deve ser amar um estranho? Um fantasma preso às minhas melhores memórias amorosas?
A resposta pra essas duas perguntas é deploravelmente triste na maioria de seus aspectos, mas ter conseguido conviver com ela me faz, além de fracassada em dias melancólicos, alguém forte por não ter sucumbido à loucura e ao pessimismo crônico. Apesar de tudo, na maior parte do tempo consigo manter meu otimismo intacto e uma pessoa decente faz isso. Mostra-se forte se consolando com o seu melhor: bons referenciais e boas sensações colhidas dos momentos que a fizeram acreditar que é feliz e que, principalmente, tem motivos pra isso.
Por outro lado, uma pessoa decente não se conforma em viver de lembranças ou referenciais senão quando em dias melancólicos de fracasso. Escrever em dias assim é particularmente doloroso, mas particularmente catártico e, portanto, me desculpem se tento me mostrar uma otimista incurável. O que provavelmente me caia como belo remédio seja um ajuste de expectativas. Afinal de contas, o quão mais tenho de esperar por você pra que, enfim, tome meu banho de água fria e perceba que o que aconteceu no passado, pertence ao que nele ficou?
Nesse exato momento me parece que quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais e o lamentável é querer me livrar do vício que é, ainda assim, querer esperá-lo. Essa é a escolha mais difícil: abrir mão, mesmo reconhecendo a dependência, e seguir em frente ou, repleta de uma teimosia quase burra, acreditar que o meu-nosso amor é capaz de fazer o que queiramos que ele faça.
Esperar pelo dia em que poderei conhecê-lo de novo me parece uma espera solitária demais pra que eu siga agüentando. Esperar por (re)conhecer meu estranho preferido me faz vestir que espécie de carapuça? Talvez a dos fracos, por me deixar submeter à tamanha dependência. Talvez a dos fortes, por acreditar tanto nos alicerces que construímos. De qualquer forma, apesar de reconhecer que nossas lembranças e nossa história são o que nos define, ao lado de minhas perguntas com respostas esquivas, a que ocupa a maior parte das minhas reflexões é:
- será mesmo que você vale todo o esforço?