domingo, 19 de dezembro de 2010
apetite voraz, por K.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
ainda lembro, por K.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
a menina, por K.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
pensamento descontínuo, por K.
Sou a garota do apt. 301, a aquariana que – por pouco – não é peixes. Alguém que acredita nas minorias, pertence a algumas delas, e foi educada pra acreditar que podem valer uma grande causa. Adoro uma boa briga e me sinto bem em dar a última palavra. Amo – de todo o coração – os pais e a irmã que tenho e me considero sortuda pelo restante da família também. São tios e primos a perder de vista, daqueles que vestem a sua camisa e te apóiam mesmo não concordando com os seus motivos. Família de sangue quente. Sangue latino. De risadas sonoras, personalidades fortes, de idas e vindas entre brigar e fazer as pazes, mas, apesar de tudo, apesar dos muitos erros e acertos, família que te acolhe.
Meu berço é responsável por boa parte do que sou e acredito ser difícil fugir das próprias raízes ou daquilo que se torna o primeiro referencial pro restante de nossas vidas. Dos valores aprendidos desde a infância, dos primeiros registros que vêm com a família ou quem quer que tenha estado presente desde o início.
Sempre fui boa em guardar segredos e me considero uma boa amiga. Uma vez que sinta sua falta em um dos muitos momentos que crio pra ficar sozinha e ouvir as vozes em minha cabeça, lhe terei em alta conta e farei o possível pra levar nossa amizade até o fim. Quando digo isso, conte com os esforços que farei pra me fazer presente e levá-lo comigo à medida que vivamos nossas vidas, mas preservar relações e pessoas é atitude que exige compromisso mútuo.
Adoro conhecer gente nova, lugares novos... adoro novidade, mas tenho sérias dificuldades com o desapego. Em me livrar do que se tornou velho, passado. Não trabalho bem com “renovação”. Sou mais do tipo que acumula até precisar ajustar as perspectivas. Fico presa ao que já vivi, ao que ouvi, ao que falei, a quem conheci. Gosto de agregar, gosto da soma e tenho boa memória tanto pra cultivar rancor, quanto gratidão. Gosto de gente, apesar do vício que intencionalmente cultivo por preservar aquilo que seja só meu e de mais ninguém. Acho que é minha forma de gostar também da solidão, de gostar do meu mundo e de reforçar meus limites. Vez ou outra expando meus horizontes, mas sou mais apegada a manter as estruturas firmes, não necessariamente maiores. A isso me refiro quando penso em mim como alguém apegada aos seus. Eu sou mesmo. Já li parte das minhas características muito bem descritas dessa forma: “tenho problemas com limites. Ou talvez não seja justo dizer isso. Para ter problemas com limites, é preciso primeiro ter limites, certo? Mas eu sou inteiramente tragada pela pessoa que amo. Sou como uma membrana permeável. Se eu amo você, eu lhe dou tudo que tenho. Dou-lhe o meu tempo, a minha dedicação, o meu corpo, o meu dinheiro, a minha família, o meu cachorro – tudo. Se eu amo você, carregarei a sua dor; assumirei suas dívidas, em todos os sentidos da palavra; protegerei você da sua própria insegurança; projetarei todo tipo de qualidade que você na verdade nunca cultivou em si mesmo”. Eu lhe darei tudo ao meu alcance e, praquilo que não esteja, pensarei em um plano pra tornar possível. Darei a você tudo isso e mais, até ficar tão exausta e debilitada que a única maneira que terei de recuperar minha energia será me dedicando a outra pessoa ou coisa.
Alguns chamariam isso de companheirismo, outros de altruísmo ou sei lá do quê. Mas ajo assim com a melhor das intenções e, muitas vezes, sem a real noção do quanto invado limites, tentando não tornar essa atitude recíproca, ou do quanto me ofereça sem resguardos. Essa fórmula me despista do quanto precise prestar atenção em mim ou voltar a cuidar do meu mundo. Daquilo que faço questão de, em muitos aspectos, manter só – e somente – como meu. Quando esse tipo de alarme soa, geralmente me dou conta da dependência criada, para ambos os lados, e trato de me esquivar. Fujo como talvez um covarde fizesse. Saio de fininho pra não fazer barulho e justifico minha atitude de forma vaga, pra não demonstrar o quão importante você se tornou ou o quanto vou sentir saudades. Me esquivo pra tentar arrumar a bagunça; pra checar como as coisas ficaram desde minha última visita ao que tento preservar como próprio: o meu nicho. Me esquivo pra voltar a me sentir sozinha – e feliz - no meu mundo. É importante que me sinta feliz sozinha porque me apegar a coisas além do meu controle significa sofrer muito com a perda. Me esquivo pra voltar a me reconhecer.
Chegando até aqui, chegamos ao entulho. Apesar de me cansar da “doação em tempo integral de mim mesma” em relação ao outro, não me desapego do tudo absorvido e tenho flashbacks da história que construí, das vezes em que me senti mais feliz. Com eles, vem a nostalgia, a melancolia e os tons de cinza. Com alguma ajuda de Florbela Espanca, digo que: "o meu mundo não é como o dos outros. Quero demais, exijo demais. Há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem mesmo compreendo, porque estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de que".
A boa notícia é que, mesmo assim perdida, meio saudosa, meio às cegas, entre mortos e feridos, todos se salvam no final. Ainda que pesada com tanta bagagem, ter histórias pra contar se torna interessante - e útil - em alguns momentos. Mesmo com tanta tralha acumulada, sou grata pela troca de experiências que conviver dessa forma com as pessoas proporciona. No fim das contas, eu gosto de gente e, apesar do risco que isso signifique, sempre farei o meu melhor pra continuar, pra me refazer e remendar depois de um tombo dos mais feios. Isso me faz perceber a capacidade razoável que tenho de me surpreender com as pessoas e comigo mesma. Finjo “já ter visto de tudo”, mas me descubro surpresa – de formas positivas e negativas - com a maneira como lido com as coisas. Me surpreendo com a capacidade das pessoas para o bem e para o mal - e com a minha própria. A quantidade de energia que tenho a ser direcionada para ambos os lados parece realmente grande, mas espero poder sempre pender pro lado do que acho justo e coerente. Tento fazer com que as coisas funcionem assim e é minha forma de assegurar que a porção do que julgo ser minha melhor parte prevaleça sobre a pior. Ninguém é tão bom que não possa melhorar, nem tão ruim que não piore. O que fazemos parar alcançar os melhores resultados de acordo com nosso julgo é o que faz a diferença. O quão somos desleais ou referenciais de idoneidade fazendo isso, também. Pra mim, os fins não justificam os meios.
Também gosto de detalhes e acho que cumprem com a função sugerida pelo famoso ditado: fazem a diferença de verdade. Trabalhar neles representa mais dor de cabeça, mais esforço, mais tempo despendido. Significa tornar as coisas mais complexas, mas fico entusiasmada porque sei do efeito que um bom resultado em escalas grandes e pequenas, exerce sobre mim: significa considerar meu esforço duplamente recompensado. E não há nada que me dê mais prazer do que a sensação de “dever cumprido” e do reconhecimento que vem dele. Meu ego muitas vezes fala por mim e é sincero em dizer que gosta de ser exaltado, elogiado e admirado. Se dou o meu melhor, espero o mesmo das pessoas ao redor e reconheço quando outras idéias são melhores que as minhas - mesmo não me desprendendo fácil de minhas próprias convicções. Se gosto de saber o que se passa na cabeça das outras pessoas, imagino que os outros também gostem e faço questão de dizer o que acho bonito/certo/aceitável ou o que acho feio/errado/inadmissível. Não teremos problemas se nossa convivência for pautada em coisas como a franqueza e a honestidade, mas tenhamos em mente que TUDO NA VIDA é forma de fazer, de falar e de agir. Pra ser sincera, não preciso machucar seus sentimentos ou tornar sua forma de sentir o mundo menor/pior/inferior que a minha. Meu discurso pode ser bonito, mas me perco em como executá-lo da melhor forma. Já pequei por ser impulsiva e falar exatamente o que me vem à cabeça. Preciso mentalizar que as coisas têm seu tempo pra acontecer e isso significa me trabalhar como alguém mais paciente: a paciência é algo que me falta e essa é uma virtude pra poucos, em dias como os de hoje.
É aquela história: tenho muitas qualidades, mas cada qual é a pior. Sou exigente. Gosto de cumprir com as responsabilidades que puxo pra mim, gosto de compromisso e talvez por isso passe maus bocados em levar as coisas com leveza. Invejo os que se deixam levar ao sabor das circunstâncias. Tenho certa obsessão por controle e tento sempre ter, senão um plano A, uma boa rota de fuga.
Jogar no papel um monte do tudo o que me trouxe/traz até aqui talvez ajude em me dar alguma perspectiva. Tenho me visto caminhando pra decisões importantes, mas bagunçada pra formar opiniões confiantes ou sensatas. Mais uma vez, escrevo pra deixar alguém ou alguma coisa parecer familiar. Escrevo pra achar a leveza que ta difícil e precisando ser achada por aí. Escrevo, enfim, pra me achar nas palavras que escrevo, assim como nas que leio, vindas de Viviane Mosé: “queria escrever todas as plantas e pessoas, queria escrever o ritmo. Escrever o que manda, o que obedece, o que cresce e o que padece de amparo. Escrever o que não sabe e o que não cabe em lugar nenhum. Viver a escrita das coisas, não as coisas que não me cabem. Acho que o oficio de ser gente me excessiva. Pessoas são pessoas o tempo todo demais. Ser gente me excessiva e me falta. Ser gente me arranha, quero voltar a ser palavra”.
- E agora? Vamo mudar de canal?, pergunta a autora.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
minha pequena grande guerra, por K.
sábado, 30 de outubro de 2010
acreditando em milagres, por K.
Me pergunto se querer tanto uma coisa pode, de fato, nos levar até ela e me pergunto se é possível querer o que não se sabe ainda. Quero tantas coisas sem delimitação ou forma estabelecidas. Quero o vasto, o abstrato e tô atrás do que nem sei. Paulo Coelho, em "O Alquimista", diz que o universo conspira a nosso favor quando se acredita nas coisas com vontade de fazer acontecer, da mesma forma como já li tantos outros defenderem que tudo se resume a ter fé.
Definir o que nos torna capazes de contrariar as leis da física, da razão e da lógica, ao dar respaldo para o que não se consegue medir ou explicar, é - por falta de uma palavra melhor - milagroso. Se for assim, talvez o milagre aconteça em mim todos os dias. Não o tipo de milagre que me remete a dogmas religiosos, mas o tipo que acontece quando lembro ainda ter motivos pra dar sentido aos meus anseios ou quando constato, apesar de tudo, ser reflexo de escolhas acertadas. Nada como a sensação de sentir orgulho de si mesmo e de um lar que nos lembre da própria essência. Em momentos como esse, o mundo inteiro é capaz de nos reverenciar e dar parabéns pelo bom trabalho.
Mas... e quando essa sensação parece velha quando se quer torná-la atual? A menina da risada sonora e de determinação teimosa tem parecido uma figura longe. Vai ver o meu milagre aconteça, da forma improvável que lhe é característica, quando renove minha percepção do que chame de lar. "Lar é onde o coração está". Sempre amei essa frase, mas a cabeça só fica sem rumo quando perde o foco com as perguntas: como deixo de lado a vontade que tá de ir embora? Como seguir me relacionando com o que não mais reconheço, nem mesmo de forma remota, como familiar?
- Talvez sentir mais com o coração e menos com a cabeça ajude, meu bem.
Ou talvez devesse parar de me empanturrar com inquietações. Quero berrar, mas é espantoso o quão surdo parece ser meu grito. Antes de ir embora, ainda queria dizer muitas coisas - dessas coisas que não se dizem costumeiramente. Dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe como serão ditas ou ouvidas - ou nem exatamente a que tipo de motivação estão a serviço. Antes de ir embora, queria trabalhar minha fé em me sentir encaixada. Antes de ir embora, talvez devesse voltar a falar de milagres...
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Confissão, por Mário Quintana.
"Que esta minha paz, e este meu amado silêncio, não iludam a ninguém. Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta. Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios. Acho-me relativamente feliz porque nada de exterior me acontece… Mas, em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto!"
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
insônia filosófica, por K.
Mundo, mundo, vasto mundo... Quero teu cheiro, teu sabor, tuas cores, tua gente tão estranha. Quer coisa mais complexa do que o bicho homem? Mas quer coisa mais apaixonante do que tanto subjetivismo? Eu, com meu gosto tão peculiar pra gente, acho a nossa tragicomédia cotidiana o ciclo vicioso mais bem pregado que existe.
Aqui lembro, mais uma vez, da história do "nada se cria, tudo se transforma". Foi assim na época dos meus pais, dos meus avós, ... e vai ser assim pros meus filhos. O mundo sempre vai estar carente de boas iniciativas, de boas ações, com um monte de disparidade clamando coerência, com zilhões de contas pra pagar e problema pra resolver. Até que, numa bela manhã de sol, nos apareçam ícones pra toda uma geração - salve salve Buda, Martin Luther King, Gandhi, os Beatles, a princesa Diana - pra desempenhar o papel que, na minha opinião, sempre vai ser vital: o de dar o exemplo e servir de inspiração.
Se vivo fosse - que descanse em paz, o meu caro amigo Rosseau - adoraria registrar, pessoalmente, meu respeito por sua teoria. Rosseau creditava ao ser humano uma existência inata - pura, inocente, frágil, desprovida de males. Essa linha de pensamento coloca o homem como um "bom selvagem" e, por conseguinte, tido como ingênuo, sociável, sem vícios e capaz de condutas mais afetivas.
O que acabou com o conto de fadas foi o belo exemplo que demos ao longo de tantas chacinas, guerras e atitudes descabidas de maldade, na história do mundo. O choque com a análise de Rousseau é gritante - já que a violência serviu como meio pro alcance de fins dos mais escabrosos.
De qualquer forma, como uma boa dose de otimismo nunca é demais, a teoria do “Bom Selvagem” acredita ser possível associar a humanidade ao modelo de organização social vigente. Foi aí que, ciente do utópico estereótipo que acabara de criar, nosso digníssimo teórico nos deu um alento (aqui vem a melhor parte!): se nos basearmos em alicerces como a família, as amizades, o bom senso e o amor, nossa aproximação ao modelo proposto será facilitada. (Ufa!)
As escolhas, sempre as escolhas - para o bem ou para o mal - são as responsáveis por tudo. A inspiração pra isso, no entanto, não precisa vir em grande escala. Não precisa ser ícone pra muitos, mas basta que o seja pra mim, como indivíduo. Basta tocar – em escala mundial, ou não. Vinda de onde vier, seja de um amigo, da minha família, do meu professor, do meu autor favorito, basta que a inspiração exista e, por isso, já me torne grata porque através dela pude acessar o que reconheço como "o melhor de mim".
Essa, se não a melhor, é uma das melhores coisas que se pode fazer por outras pessoas. Inspirar o outro e, com nosso exemplo, deixar legados de admiração, orgulho e satisfação. O que seria de nós, e de tudo o que se pode ver, ouvir e tocar, se não houvesse a tal da identificação, da afinidade, da comunhão de idéias... daquele momento em que - É ISSO! - tudo agora parece fazer sentido? Tudo agora, pela forma como outra pessoa ou atitude foi capaz de fazer, enxergo as coisas com outros olhos?
Sou do time de achar que não há nada tão comovente - nem atos de amor ou ódio - quanto constatar que não se está sozinho. No fim das contas, o bicho homem foi feito pra viver em sociedade por alguma razão e isso nos leva a reflexões das mais válidas. A idéia de "vamos construir juntos?" sempre será capaz de me atrair até o último fio de cabelo. Sou de grupos, apesar de mais a favor ou melhor encaixada nos minoritários, tendo a valorizar mais o que é nosso, em detrimento do que é só meu.
Tendo a valorizar os momentos em que escolhas são feitas, inspiradas por bons referenciais, em conjunturas que tornem possível nossa participação com o "melhor" que tivermos pra dar. Tendo a valorizar a multiplicação de "bons - selvagens", que façam escolhas, senão certas, pelo menos, sensatas. Afinal de contas, voltando a Gandhi, sejamos "a mudança que se quer ver no mundo". E essa, acredito eu, clama por ser das boas.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Something to rely on, por K.
Tem coisa que não sai da gente. Nunca. Ranço. Vício de linguagem, de comportamento. Transformação que implica mudar em gênero, número e grau. Taí um dos desafios mais difíceis. Já cansei de ouvir ou falar que ninguém muda ninguém, mas – se me é dada alguma licença poética - desconfie, porque nem sempre sou da minha opinião. Só você mesmo pra avaliar se isso é possível e o quão dispendioso será. O quão (des)construtivo ou, ainda, arruinador.
Seja como for, não há nada de errado com a ruína, com o bagaço, com os cacos. Nada se perde, tudo se transforma e a partir de um quase nada de sucesso e um tanto de fracasso, a gente (re)imenda, (re)cola e (re)faz. Tem mais tentativas do que acertos aqui, e isso é deliberado.
Por que não?
- Não há nada de errado com, além de querer, tentar mudar. Mesmo que depois não se consiga. Talvez tudo deva ser avaliado a partir do esforço e, pra isso – até pra tentar mudar – é preciso um bocado de reflexão e coragem.
Por outro lado, se bastar com tentativas parece pouco e quando não se é treinada/educada/preparada pra ficar com elas - e sim com resultados que nos orgulhem por completo – a sensação de fracasso bate à porta e escancara mesmo. Ainda assim, só podemos culpar a nós mesmos pela falha na estratégia. There´s no one else to blame, apesar de ser tentador pensar que “quando a culpa é minha, a coloco em quem eu quiser”.
É insano repetir atitudes esperando resultados diferentes e essa talvez seja a concepção, muitas vezes falha, do que venha a ser mudança. Chamo isso de depositar bons ou maus resultados em outras pessoas, querendo – às vezes - crédito por isso, e fazendo com que tudo gire ao sabor das circunstâncias e da conveniência. Outro dia li e não pude deixar de concordar: “como a vida é forte em suas algemas”, mas, além disso, como somos covardes conosco.
Voltando ao esforço e ao quanto ele merece ser levado em conta, pelo menos vou tentando. Voltando ao querer mudar e ao quanto isso me faz ciente de minhas falhas, pelo menos há reflexão. Voltando às escolhas e aos lugares em que elas nos levam, pelo menos há aprendizado. Traduzir dores, anseios, cores nunca vai ser fácil. A regra talvez não seja tão clara, mas: enquanto há vida, há busca.
Aqui, não posso deixar de fazer menção, mais do que honrosa, às palavras tão reconfortantes de Liz Gilbert, responsável por tantas gargalhadas, choros e reflexões bem-vindas nos últimos tempos. É preciso ter em mente que, "se você tem a coragem de deixar para trás tudo que lhe é familiar e confortável e parte em busca da verdade - para dentro ou para fora - e se você tem mesmo a vontade de considerar tudo que acontece no meio do caminho como uma pista, e se você aceitar cada um que encontre como professor, e se estiver preparada, acima de tudo, para encarar - e perdoar - algumas realidades bem difíceis sobre você mesma, então a verdade não lhe será negada."
E a verdade dói. Dói, mas é bom. Do tipo de dor que vicia, e purifica.
domingo, 12 de setembro de 2010
(Re)começo, por K.
- Obrigada, amor meu.
Quando sempre achei precisar deixá-lo ir, quem precisava fazê-lo era eu. A travessia foi feita. A minha travessia foi feita. Podemos descansar agora. Posso, agora, soltar sua mão ou qualquer coisa que lhe pertença e tenha querido tornar meu por todos esses anos. Posso, agora, querê-lo bem, sem querê-lo pra mim da forma quase-à-beira-da-loucura dos últimos anos. Apertemos os cintos!
- Eu falei que gostava de surpresas, não?
Pois bem. Me parece que o "Sr. Inesperado" andou mesmo espreitando as coisas e decidiu me deixar um presente pela visita.
*Recife, em 12 de setembro de 2010, por volta das três da tarde, às margens do Capibaribe, ouvindo Bon Jovi, com gosto de espumone na boca, vestindo a roupa que você mais gostava.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Eu contigo, eu comigo, nós conosco- por K.
sábado, 4 de setembro de 2010
1, 2, 3... surpresa!, por K.
Exatamente porque a única coisa que nunca poderemos controlar (ou prever) é a capacidade que tudo sempre terá de nos surpreender. E aí ... exatamente aí... é que mais claramente se distinguem as pessoas: existem as que adoram ser surpreendidas e as que simplesmente odeiam.
É aqui onde todas as suposições caem por terra; onde as palavras e atitudes ensaiadas são esquecidas; onde tudo o que se poder fazer é respirar fundo, trabalhar através da situação e esperar estar pronto o bastante pra lidar com o inesperado. Quantas vezes não desistimos de milhões de planos simplesmente por achar não ser a hora; não estarmos prontos ou por não agüentarmos o tranco.
Pois lhes trago um velho tão novo fato: o "Sr. Inesperado" NÃO DÁ A MÍNIMA pras hipóteses que você considerou. Pros muros que construiu. Pras previsões que fez ou praquilo que lhe seja familiar. Ele simplesmente não pede permissão ou pergunta ser bem-vindo. Faz as coisas por ser um executor e ter grande apreço pelo “fazer acontecer”.
Então vai ser assim: mesmo que não tenha exata noção do que isso possa significar – e mesmo que, um dia, todo mundo já tenha sido advertido pra ter cuidado com o que deseja – eu absolutamente não vejo a hora e mal consigo conter a vontade de esbarrar, quase que aos tropeços, com ele. Com um turbilhão de tudo novo de novo. Com um turbilhão de... desafios. Com tudo isso e mais um monte de coisas do qual não faça a mínima idéia. Afinal de contas, onde se vê medo, hesitação ou retração, também se pode sentir vida, repleta de adrenalina e inspiração.
PS: e só pra constar, eu ADORO surpresas!
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
"Viver e se deixar viver", por Kalina Simplício
Como é bom viver!
domingo, 29 de agosto de 2010
- a dor na ausência.
* O amor nos tempos do cólera, por Gabriel García Márquez, publicado em 1985.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Meu estranho preferido, por K.
- E, acredite, a gente só sente saudade do que foi bom. Do que nos tocou e fez sentir especiais em todo o nosso potencial.
A vida não pára e, à altura em que chegamos, você se tornou meu estranho preferido: aquele de quem não consigo afastar meus pensamentos e preces. Aquele que me permite sentir saudades do passado que colorimos em tons tão alegres e otimistas. Por quem meu coração bateu tão mais forte. Com quem fiz tantos planos e sonhei acordada. Aquele que me alimenta de lembranças vivas só em mim. O quão triste, então, deve ser amar um estranho? Um fantasma preso às minhas melhores memórias amorosas?
A resposta pra essas duas perguntas é deploravelmente triste na maioria de seus aspectos, mas ter conseguido conviver com ela me faz, além de fracassada em dias melancólicos, alguém forte por não ter sucumbido à loucura e ao pessimismo crônico. Apesar de tudo, na maior parte do tempo consigo manter meu otimismo intacto e uma pessoa decente faz isso. Mostra-se forte se consolando com o seu melhor: bons referenciais e boas sensações colhidas dos momentos que a fizeram acreditar que é feliz e que, principalmente, tem motivos pra isso.
Por outro lado, uma pessoa decente não se conforma em viver de lembranças ou referenciais senão quando em dias melancólicos de fracasso. Escrever em dias assim é particularmente doloroso, mas particularmente catártico e, portanto, me desculpem se tento me mostrar uma otimista incurável. O que provavelmente me caia como belo remédio seja um ajuste de expectativas. Afinal de contas, o quão mais tenho de esperar por você pra que, enfim, tome meu banho de água fria e perceba que o que aconteceu no passado, pertence ao que nele ficou?
Nesse exato momento me parece que quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais e o lamentável é querer me livrar do vício que é, ainda assim, querer esperá-lo. Essa é a escolha mais difícil: abrir mão, mesmo reconhecendo a dependência, e seguir em frente ou, repleta de uma teimosia quase burra, acreditar que o meu-nosso amor é capaz de fazer o que queiramos que ele faça.
Esperar pelo dia em que poderei conhecê-lo de novo me parece uma espera solitária demais pra que eu siga agüentando. Esperar por (re)conhecer meu estranho preferido me faz vestir que espécie de carapuça? Talvez a dos fracos, por me deixar submeter à tamanha dependência. Talvez a dos fortes, por acreditar tanto nos alicerces que construímos. De qualquer forma, apesar de reconhecer que nossas lembranças e nossa história são o que nos define, ao lado de minhas perguntas com respostas esquivas, a que ocupa a maior parte das minhas reflexões é:
- será mesmo que você vale todo o esforço?
quarta-feira, 28 de julho de 2010
carta de intenções, por K.
Vai ver sentimos falta mesmo – aliado ao nosso desespero em beber tudo, experimentar tudo e consumir tudo até a última gota – de sensibilidade para captar detalhes. Tanta coisa acontece num piscar de olhos, num suspirar de intenções. Na pressa das selvas de pedra em que a maioria de nós vive não se abre espaço na prateleira pra mais alguns minutinhos de um último café, de um último trago, de um último apreço de prazeres e, principalmente, de se estar por completo nas situações em que nos metemos. No fim das contas, se trabalha tão duro pra pagar aquela viagem dos sonhos com marido e filhos que já se embarca pensando em como vai ser na volta, pra pagar as contas da estripulia.
A armadilha está quando tudo muito rapidinho vicia e esse constante convite à insanidade é, sim, muito tentador. Quem não gosta de tudo rápido, expresso e de forma objetiva? Quem não quereria que sonhos mais fáceis de se tornar reais fossem projetos a curto prazo? ME RESPONDAM! Quem?
terça-feira, 27 de julho de 2010
dados lançados, por K.
Com todo o meu amor, ainda que antigo, novinho em folha.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
chuva, chuvisco, chuvarada, por K.
A cidade, o estado e o país dão as mãos em sinal de luto por tanto que “descansa” na lama que ficou depois da enxurrada. Choram como as crianças que ficaram sem mãe; os maridos, sem esposa; as famílias, sem casa. Choram pelo sentimento de culpa e pelo inevitável senso de solidariedade – com uma pitada de alívio por saber que o jardim do vizinho, hoje, não é mais bonito que o seu – característico dessas horas. Ambos demonstrativos do quanto não se sabe prevenir ao invés de remediar, no Brasil. Depois de uma tragédia como as últimas chuvas no Nordeste, os fundos de amparo são reativados e as arrecadações ganham mais força. E quem pode nos culpar? Agora, com tudo em ruínas, o urgente é manter-se inteiro pela sobrevivência.
Vejam que, ao falar de solidariedade, falei de senso dela, não de sentimento. Idéia, senso ou noção do ser solidário, qualquer “bom” ser humano já deve ter tido; mas vivenciar e realmente decidir repassar adiante, aí sim vem o desafio e é onde boa parte de nós – classe média cada vez mais baixa e não alta, sofremos o soco no estômago. Ocupamos um lugar muitas vezes (in)convenientemente pensado. Afinal de contas, é bastante conveniente estarmos a uma distância “saudável” do que seja pobreza-miséria, mas essa mesma distância não é grande o bastante pra impedir que as poças lentamente se formem e demonstrem que a força da água pode afetar também a nossa própria casa. Não somos como a rica - e muitas vezes alienada - 1ª classe, cujo referencial de menos passou a milhões de quilômetros do que viesse a ser poupar. Sim, porque no Brasil ou se tem dinheiro o bastante pra não caber na própria cueca ou se é preso por levar uma lata de margarina do supermercado.
O que me pergunto é: o quão silencioso é o grito da miséria, da favela, das famílias destruídas pela chuva? E a resposta, apesar de triste, me vem fácil: é silencioso daquele tipo de silêncio que cala e consente. Consente o assistencialismo, a ajuda barata que não dura. Entendam bem que minha intenção aqui absolutamente não é a de criticar os esforços reunidos para dar de comer a quem tem fome e a de beber a quem tem sede. Pra mim, isso não é assistencialismo. É conter danos pra que o chuvisco não vire chuva e depois não vire chuvarada e depois não vire aguaceiro. É a oportunidade fronteiriça de ter chances de prevenir. O problema está, mais uma vez, em acomodar-se. A gente se acostuma muito fácil às coisas. Se acostuma a ter um apartamento com janela, mas que não abre porque ta emperrada. E porque não abre, decide pôr uma cortina. E porque tem cortina, decide não aproveitar a luz natural e paga mais caro pela conta de luz. Eu posso me acostumar a gastar mais dinheiro, mas nada vai compensar as oportunidades que eu perdi por não ter aberto qualquer brecha pro vento entrar, pros sons provocarem os mais variados efeitos ou pros cheiros ativarem qualquer espécie de memória. Isso tudo só me faz concluir que to pagando mais por menos. Aliás, que nós estamos.
O problema é que as proporções que os eventos tomam não são tão impossíveis de se prever, mas são perfeitamente possíveis de se mascarar e isso inebria, entontece, mas não é fascinante. Por favor, meu Brasil, me mostre os meios e não os fins!
terça-feira, 6 de julho de 2010
os delírios de consumo de Kamila Simplício.
Mas oportunidade de quê? Cadê essa compra dos sonhos que não chega nunca? O último vestido maravilhoso que tive não cabe mais em mim e não consigo achar outro que sirva como ele. Minha mãe diria: “é preciso paciência, minha filha. Nada como pesquisar bastante pra sondar o melhor preço e qualidade e achar o equilíbrio”. De qualquer forma, desesperada como estou pra sair no sábado à la feme fatale, ninguém me culparia – nem mesmo minha mãe – por gastar um pouquinho mais, mesmo encontrando uma qualidade não tão legal. Afinal de contas, dinheiro tem de sobra e pressa, aos montes! Em dias como os de hoje, nada como atacar de consumista e comprar qualquer coisa de vez em quando.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
deixando ir, por K.
A mulher, testando qual a sensação de voltar pra casa depois de tanto tempo pareceria, se pôs a refazer o caminho que outrora lhe era tão constante. À medida que o trajeto tomava forma, constatou as semelhanças com o guardado na memória como as mais próximas. Quando chegou à casa do amado – assustadoramente igual aos anos em que tomara um pouco como sua, iniciou um processo talvez de despedida.
A saudade com a qual teve de lidar e o ímpeto em bater à sua porta foram tão intensos como imaginara que seriam, mas orgulhou-se pela serenidade com a qual se pôs a controlá-los. A companhia constante de ambos pelos últimos anos aliada às tentativas de conciliar vontades opostas de mente e coração pareceram dar-la uma estranha noção do real, do possível e de proteção. Colocou-se a desejar que a janela abrisse para registrar como última lembrança o perfil do amado, que desconhecia estar sendo observado, ao invés das palavras cruéis ainda tatuadas em sua mente desde o último contato havido. As luzes do quarto ora ascendiam, ora apagavam levando embora e trazendo de volta as expectativas de vê-lo uma última vez, mesmo que de longe.
“Apareça, apareça, apareça, por favor.” – repetia e desejava mentalmente consigo.
Mas o desejo foi em vão. Tudo o que havia diante de si era a casa intacta - com suas janelas fechadas, de mãos dadas com a saudade e o lamento de não ser ouvida e não poder despedir-se à altura do grande amor que carregava no peito, na memória e com o qual construíra uma história digna da melhor forma de apaixonar-se: inesperadamente.
De qualquer forma, não importando mais de qual dos dois seria a culpa por terem se transformado em completos estranhos depois de tudo terminado, a mulher desculpou-se pelo estrago emocional provocado e voltou pra casa com outro grande desejo, além do de esperar que sua mente, assim como as palavras, tivesse poder: o de que as desculpas fossem recíprocas e lhe dessem o passaporte para um (re)começo.
presentes ausentes, por Janaína Lisboa.
Apesar de velho, forte e freqüentemente dono do controle, o cérebro precisa de café pra funcionar. E o coração, que pula forte como uma menina de quatro anos brincando de corda, birrenta e traquina, aproveitou que o senhor ranzinza ainda estava abatido para tomar controle de tudo.
Seguindo a voz do coração, o corpo saiu pela casa procurando fita-adesiva, laços coloridos e papel. Se mexia tão elétrico que parecia um cardume de enguia feitas de lápis-de-cor. O cérebro meio ausente perguntou para o coração presente:
- Mas o que é isso?
- Uma surpresa.
- Que surpresa?
- Um presente, ora essa. – O coração presente criança não sabe guardar segredos.
- Para quem?
- Um menino.
- Por quê? É aniversário dele?
- Não.
- Então, por que tu vais dar um presente para ele?
- Não é só pra ele. Brincaremos juntos.
- Se ele te achar boba e te fazer chorar? Nem dá pra chamar isso que você está fabricando de presente. Nota-se que és um clichê ambulante.
O cérebro devia ser mais cordial, às vezes. O coração achou melhor não ataque-cardiar, se calar e apressar por que via que o cérebro, mesmo sem café, estava se despertando. Tum-tum, ele permaneceu trabalhando, trabalhando, tum-tum, ele persistiu batendo, batendo. O cérebro, por sua vez, prosseguiu com a contestação:
- Por que você não solta uma porção de palavras bonitas e faz de conta que é inteligente?
- Porque posar de maluca sempre foi muito mais divertido.
- E é por isso que você perde tempo nesse pacote feio de conteúdo duvidoso? Você quer enlaçá-lo ou se enforcar com esse monte de fita colorida? Olha, é melhor você sossegar, ninguém vai te julgar por não querer se expor.
O coração parou de bater por um milésimo de segundo, duvidoso achando que tivesse entretido com alguma espécie de prisão ou auto-sabotagem. Mas, sem sangue, o cérebro perdeu o oxigênio e ficou tonto, e o coração pequeno, marrento e de personalidade forte como ele só, pulsou esperançoso e prosseguiu colando o papel enrolado e amarrotado envolta da caixa de figuras estranhas.
Dentro da caixa, o cérebro via que algo brilhava, porém ele não ousava adivinhar o que continha naquele engodo: Um monstro? Uma bailarina? Uma bomba de chocolate? Ou de Hiroshima?
Afinal, dessas coisas que vêm do coração, ninguém sabe o que esperar.
* a melhor descoberta dos últimos tempos, da última semana: Janaína Lisboa.
domingo, 4 de julho de 2010
tributo ao fraterno, por K.
As amizades de outrora são magníficas em provar isso à medida que as vejo falar com tanta propriedade da pessoa que fui e na qual me transformei – ainda assim permanecendo capazes de me amar e respeitar com a lealdade que aprende a vir com os anos. A vocês, sou grata por me ajudarem a enxergar os defeitos e qualidades que me fazem ser quem sou e, principalmente, por me mostrarem o quanto vale a pena ser capaz de investir nas pessoas, acreditando que se pode enxergar o mundo por outros olhos, mesmo quando se ache que as possibilidades pra isso não são lá tão grandes.
As pessoas na verdade não são donas de si. Acabam pertencendo aos que as amam e, de todas as formas de amar, a amizade indubitavelmente é a mais pura e despida de falsas expectativas. Pra ser amigo, é preciso conhecer; e pra conhecer, são precisas as voltas que esse mundo dá junto com os momentos em que as máscaras caem e as personalidades afloram. Obrigada pela paciência em esperar que me despisse de algumas das minhas próprias máscaras. Amigo é amigo pra tudo e qualquer coisa, inclusive pros momentos em que se precisa relembrar da própria essência. Obrigada por me permitirem sonhar com os pés no chão e por fazê-lo comigo. Pertencer aos meus sempre será um enorme prazer e pertenço a cada um de forma diferente, mas com tudo o que tenho.
Aos amigos – em especial aos meus, um brinde com desejo de vida longa! “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.” Que Saramago esteja certo e que estejamos, nós amigos, a viajar sempre juntos até que nossos trajetos se prolonguem em memória, através do tempo.
O chamado, por K.
Tenho chamado por você há tanto tempo que me perco nas vezes em que fantasiei o encontro onde tudo é tão puro, claro e simples. Você me abraça sem cobranças ou expectativas e me proporciona as mais variadas sinestesias. Nessa dança dos sentidos, nos reconhecemos - a olhos terceiros - de forma lacônica, é verdade. Nada preciso dizer, posto que já sabes tudo. Sabes a maneira certa de olhar-me... arrancar-me o fôlego... roubar-me um beijo... acalmar e dar paz. Isso me basta... e bastaria por toda minha existência.Bastaria para me sentir protegida e segura; amada e querida; lembrada e desejada.
Hoje, escrevo pra você, querido. Pra você e pros nossos longos e felizes dias que, sei, ainda virão! Gosto de pensar que ainda há algo de especial lá fora e pronto pra encher meus dias de alegria e satisfação. Algo que compense e satisfaça o tempo de espera, tantos desencontros e tantas decepções por pensar tê-lo encontrado. Você, pra mim, já teve tantos nomes... mas quando paro e penso, continuo sem pista alguma. Não sei como te chamas ou qual o teu cheiro, só sei de minha espera pelos longos e nostálgicos dias.
- Eu o quero tanto, tanto.
Será que consegues me ouvir? Ouve meus anseios e caminha em minha direção, amado meu! Caminha para nossa história e para o belo à nossa espera. Assim te invoco e te quero para descobrir o melhor de mim... o melhor de nós dois.

