Sou a garota do apt. 301, a aquariana que – por pouco – não é peixes. Alguém que acredita nas minorias, pertence a algumas delas, e foi educada pra acreditar que podem valer uma grande causa. Adoro uma boa briga e me sinto bem em dar a última palavra. Amo – de todo o coração – os pais e a irmã que tenho e me considero sortuda pelo restante da família também. São tios e primos a perder de vista, daqueles que vestem a sua camisa e te apóiam mesmo não concordando com os seus motivos. Família de sangue quente. Sangue latino. De risadas sonoras, personalidades fortes, de idas e vindas entre brigar e fazer as pazes, mas, apesar de tudo, apesar dos muitos erros e acertos, família que te acolhe.
Meu berço é responsável por boa parte do que sou e acredito ser difícil fugir das próprias raízes ou daquilo que se torna o primeiro referencial pro restante de nossas vidas. Dos valores aprendidos desde a infância, dos primeiros registros que vêm com a família ou quem quer que tenha estado presente desde o início.
Sempre fui boa em guardar segredos e me considero uma boa amiga. Uma vez que sinta sua falta em um dos muitos momentos que crio pra ficar sozinha e ouvir as vozes em minha cabeça, lhe terei em alta conta e farei o possível pra levar nossa amizade até o fim. Quando digo isso, conte com os esforços que farei pra me fazer presente e levá-lo comigo à medida que vivamos nossas vidas, mas preservar relações e pessoas é atitude que exige compromisso mútuo.
Adoro conhecer gente nova, lugares novos... adoro novidade, mas tenho sérias dificuldades com o desapego. Em me livrar do que se tornou velho, passado. Não trabalho bem com “renovação”. Sou mais do tipo que acumula até precisar ajustar as perspectivas. Fico presa ao que já vivi, ao que ouvi, ao que falei, a quem conheci. Gosto de agregar, gosto da soma e tenho boa memória tanto pra cultivar rancor, quanto gratidão. Gosto de gente, apesar do vício que intencionalmente cultivo por preservar aquilo que seja só meu e de mais ninguém. Acho que é minha forma de gostar também da solidão, de gostar do meu mundo e de reforçar meus limites. Vez ou outra expando meus horizontes, mas sou mais apegada a manter as estruturas firmes, não necessariamente maiores. A isso me refiro quando penso em mim como alguém apegada aos seus. Eu sou mesmo. Já li parte das minhas características muito bem descritas dessa forma: “tenho problemas com limites. Ou talvez não seja justo dizer isso. Para ter problemas com limites, é preciso primeiro ter limites, certo? Mas eu sou inteiramente tragada pela pessoa que amo. Sou como uma membrana permeável. Se eu amo você, eu lhe dou tudo que tenho. Dou-lhe o meu tempo, a minha dedicação, o meu corpo, o meu dinheiro, a minha família, o meu cachorro – tudo. Se eu amo você, carregarei a sua dor; assumirei suas dívidas, em todos os sentidos da palavra; protegerei você da sua própria insegurança; projetarei todo tipo de qualidade que você na verdade nunca cultivou em si mesmo”. Eu lhe darei tudo ao meu alcance e, praquilo que não esteja, pensarei em um plano pra tornar possível. Darei a você tudo isso e mais, até ficar tão exausta e debilitada que a única maneira que terei de recuperar minha energia será me dedicando a outra pessoa ou coisa.
Alguns chamariam isso de companheirismo, outros de altruísmo ou sei lá do quê. Mas ajo assim com a melhor das intenções e, muitas vezes, sem a real noção do quanto invado limites, tentando não tornar essa atitude recíproca, ou do quanto me ofereça sem resguardos. Essa fórmula me despista do quanto precise prestar atenção em mim ou voltar a cuidar do meu mundo. Daquilo que faço questão de, em muitos aspectos, manter só – e somente – como meu. Quando esse tipo de alarme soa, geralmente me dou conta da dependência criada, para ambos os lados, e trato de me esquivar. Fujo como talvez um covarde fizesse. Saio de fininho pra não fazer barulho e justifico minha atitude de forma vaga, pra não demonstrar o quão importante você se tornou ou o quanto vou sentir saudades. Me esquivo pra tentar arrumar a bagunça; pra checar como as coisas ficaram desde minha última visita ao que tento preservar como próprio: o meu nicho. Me esquivo pra voltar a me sentir sozinha – e feliz - no meu mundo. É importante que me sinta feliz sozinha porque me apegar a coisas além do meu controle significa sofrer muito com a perda. Me esquivo pra voltar a me reconhecer.
Chegando até aqui, chegamos ao entulho. Apesar de me cansar da “doação em tempo integral de mim mesma” em relação ao outro, não me desapego do tudo absorvido e tenho flashbacks da história que construí, das vezes em que me senti mais feliz. Com eles, vem a nostalgia, a melancolia e os tons de cinza. Com alguma ajuda de Florbela Espanca, digo que: "o meu mundo não é como o dos outros. Quero demais, exijo demais. Há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem mesmo compreendo, porque estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de que".
A boa notícia é que, mesmo assim perdida, meio saudosa, meio às cegas, entre mortos e feridos, todos se salvam no final. Ainda que pesada com tanta bagagem, ter histórias pra contar se torna interessante - e útil - em alguns momentos. Mesmo com tanta tralha acumulada, sou grata pela troca de experiências que conviver dessa forma com as pessoas proporciona. No fim das contas, eu gosto de gente e, apesar do risco que isso signifique, sempre farei o meu melhor pra continuar, pra me refazer e remendar depois de um tombo dos mais feios. Isso me faz perceber a capacidade razoável que tenho de me surpreender com as pessoas e comigo mesma. Finjo “já ter visto de tudo”, mas me descubro surpresa – de formas positivas e negativas - com a maneira como lido com as coisas. Me surpreendo com a capacidade das pessoas para o bem e para o mal - e com a minha própria. A quantidade de energia que tenho a ser direcionada para ambos os lados parece realmente grande, mas espero poder sempre pender pro lado do que acho justo e coerente. Tento fazer com que as coisas funcionem assim e é minha forma de assegurar que a porção do que julgo ser minha melhor parte prevaleça sobre a pior. Ninguém é tão bom que não possa melhorar, nem tão ruim que não piore. O que fazemos parar alcançar os melhores resultados de acordo com nosso julgo é o que faz a diferença. O quão somos desleais ou referenciais de idoneidade fazendo isso, também. Pra mim, os fins não justificam os meios.
Também gosto de detalhes e acho que cumprem com a função sugerida pelo famoso ditado: fazem a diferença de verdade. Trabalhar neles representa mais dor de cabeça, mais esforço, mais tempo despendido. Significa tornar as coisas mais complexas, mas fico entusiasmada porque sei do efeito que um bom resultado em escalas grandes e pequenas, exerce sobre mim: significa considerar meu esforço duplamente recompensado. E não há nada que me dê mais prazer do que a sensação de “dever cumprido” e do reconhecimento que vem dele. Meu ego muitas vezes fala por mim e é sincero em dizer que gosta de ser exaltado, elogiado e admirado. Se dou o meu melhor, espero o mesmo das pessoas ao redor e reconheço quando outras idéias são melhores que as minhas - mesmo não me desprendendo fácil de minhas próprias convicções. Se gosto de saber o que se passa na cabeça das outras pessoas, imagino que os outros também gostem e faço questão de dizer o que acho bonito/certo/aceitável ou o que acho feio/errado/inadmissível. Não teremos problemas se nossa convivência for pautada em coisas como a franqueza e a honestidade, mas tenhamos em mente que TUDO NA VIDA é forma de fazer, de falar e de agir. Pra ser sincera, não preciso machucar seus sentimentos ou tornar sua forma de sentir o mundo menor/pior/inferior que a minha. Meu discurso pode ser bonito, mas me perco em como executá-lo da melhor forma. Já pequei por ser impulsiva e falar exatamente o que me vem à cabeça. Preciso mentalizar que as coisas têm seu tempo pra acontecer e isso significa me trabalhar como alguém mais paciente: a paciência é algo que me falta e essa é uma virtude pra poucos, em dias como os de hoje.
É aquela história: tenho muitas qualidades, mas cada qual é a pior. Sou exigente. Gosto de cumprir com as responsabilidades que puxo pra mim, gosto de compromisso e talvez por isso passe maus bocados em levar as coisas com leveza. Invejo os que se deixam levar ao sabor das circunstâncias. Tenho certa obsessão por controle e tento sempre ter, senão um plano A, uma boa rota de fuga.
Jogar no papel um monte do tudo o que me trouxe/traz até aqui talvez ajude em me dar alguma perspectiva. Tenho me visto caminhando pra decisões importantes, mas bagunçada pra formar opiniões confiantes ou sensatas. Mais uma vez, escrevo pra deixar alguém ou alguma coisa parecer familiar. Escrevo pra achar a leveza que ta difícil e precisando ser achada por aí. Escrevo, enfim, pra me achar nas palavras que escrevo, assim como nas que leio, vindas de Viviane Mosé: “queria escrever todas as plantas e pessoas, queria escrever o ritmo. Escrever o que manda, o que obedece, o que cresce e o que padece de amparo. Escrever o que não sabe e o que não cabe em lugar nenhum. Viver a escrita das coisas, não as coisas que não me cabem. Acho que o oficio de ser gente me excessiva. Pessoas são pessoas o tempo todo demais. Ser gente me excessiva e me falta. Ser gente me arranha, quero voltar a ser palavra”.
- E agora? Vamo mudar de canal?, pergunta a autora.