quarta-feira, 28 de julho de 2010

carta de intenções, por K.

Sei da capacidade de desgaste dos sentimentos e com o amor não seria diferente. Mas não me cabe a idéia de trabalhar com ele como se fosse um recurso natural em extinção. Nunca fui capaz de comprar essa idéia e acredito, desde a primeira vez em que ouvi o poeta dizer, que amor é daqueles sentimentos que “quanto mais se dá, mais se tem”. Ninguém vai estar perdido se der amor e receber um pouco em troca. Amar talvez seja a única salvação pras pressas que precisamos acalmar, mesmo quando se precise transformar perdas em recompensas.
Vai ver sentimos falta mesmo – aliado ao nosso desespero em beber tudo, experimentar tudo e consumir tudo até a última gota – de sensibilidade para captar detalhes. Tanta coisa acontece num piscar de olhos, num suspirar de intenções. Na pressa das selvas de pedra em que a maioria de nós vive não se abre espaço na prateleira pra mais alguns minutinhos de um último café, de um último trago, de um último apreço de prazeres e, principalmente, de se estar por completo nas situações em que nos metemos. No fim das contas, se trabalha tão duro pra pagar aquela viagem dos sonhos com marido e filhos que já se embarca pensando em como vai ser na volta, pra pagar as contas da estripulia.
A armadilha está quando tudo muito rapidinho vicia e esse constante convite à insanidade é, sim, muito tentador. Quem não gosta de tudo rápido, expresso e de forma objetiva? Quem não quereria que sonhos mais fáceis de se tornar reais fossem projetos a curto prazo? ME RESPONDAM! Quem?
- Eu, certamente. Admite a autora, vencida pelos "benefícios" da praticidade.
Mas quer saber do que gostaria de verdade? Da idéia de aprender a respeitar o tempo e o processo das coisas. De construir muros sólidos e transformá-los em fortalezas; de viver sonhos que se construam aos poucos e de não estar sozinha nesta carta de intenções.

terça-feira, 27 de julho de 2010

dados lançados, por K.

Presa entre o que quero e o que preciso. Entre essa guerra de vontades que soma algumas primaveras, mas convive em maioria com dias de inverno. Não posso mais permanecer na dúvida da volta, do toque familiar, do cheiro e da continuação da história. Embora tenha encontrado algum benefício na dúvida, começo a achar que tratamentos de choque existem por alguma razão.
Nada como agarrar-se pela metade às coisas e contentar-se com pouco. Tem sido assim desde que você foi embora. As pessoas aprendem a viver pela metade e confesso ser uma delas. Mas hoje desejo fazer outro tipo de confissão: tudo acaba aqui. A vida pela metade e a outra banda dela. Que se unam em vontade compartilhada ou se separem para sempre.
Com todo o meu amor, ainda que antigo, novinho em folha.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

chuva, chuvisco, chuvarada, por K.

Chovia muito e a cidade parecia lamentar, talvez arrependida, as tantas vidas que levara dessa forma. A água infiltrou-se por todos os espaços e carregou consigo as alegrias, as tristezas, os sonhos, os desabores... o tempo. A sensação de perder tudo assim... sem espaço pra bolar um plano de fuga ou apegar-se a qualquer tábula de salvação, deve ser mesmo indescritível e não é esse meu objetivo nas próximas linhas.
A cidade, o estado e o país dão as mãos em sinal de luto por tanto que “descansa” na lama que ficou depois da enxurrada. Choram como as crianças que ficaram sem mãe; os maridos, sem esposa; as famílias, sem casa. Choram pelo sentimento de culpa e pelo inevitável senso de solidariedade – com uma pitada de alívio por saber que o jardim do vizinho, hoje, não é mais bonito que o seu – característico dessas horas. Ambos demonstrativos do quanto não se sabe prevenir ao invés de remediar, no Brasil. Depois de uma tragédia como as últimas chuvas no Nordeste, os fundos de amparo são reativados e as arrecadações ganham mais força. E quem pode nos culpar? Agora, com tudo em ruínas, o urgente é manter-se inteiro pela sobrevivência.
Vejam que, ao falar de solidariedade, falei de senso dela, não de sentimento. Idéia, senso ou noção do ser solidário, qualquer “bom” ser humano já deve ter tido; mas vivenciar e realmente decidir repassar adiante, aí sim vem o desafio e é onde boa parte de nós – classe média cada vez mais baixa e não alta, sofremos o soco no estômago. Ocupamos um lugar muitas vezes (in)convenientemente pensado. Afinal de contas, é bastante conveniente estarmos a uma distância “saudável” do que seja pobreza-miséria, mas essa mesma distância não é grande o bastante pra impedir que as poças lentamente se formem e demonstrem que a força da água pode afetar também a nossa própria casa. Não somos como a rica - e muitas vezes alienada - 1ª classe, cujo referencial de menos passou a milhões de quilômetros do que viesse a ser poupar. Sim, porque no Brasil ou se tem dinheiro o bastante pra não caber na própria cueca ou se é preso por levar uma lata de margarina do supermercado.
O que me pergunto é: o quão silencioso é o grito da miséria, da favela, das famílias destruídas pela chuva? E a resposta, apesar de triste, me vem fácil: é silencioso daquele tipo de silêncio que cala e consente. Consente o assistencialismo, a ajuda barata que não dura. Entendam bem que minha intenção aqui absolutamente não é a de criticar os esforços reunidos para dar de comer a quem tem fome e a de beber a quem tem sede. Pra mim, isso não é assistencialismo. É conter danos pra que o chuvisco não vire chuva e depois não vire chuvarada e depois não vire aguaceiro. É a oportunidade fronteiriça de ter chances de prevenir. O problema está, mais uma vez, em acomodar-se. A gente se acostuma muito fácil às coisas. Se acostuma a ter um apartamento com janela, mas que não abre porque ta emperrada. E porque não abre, decide pôr uma cortina. E porque tem cortina, decide não aproveitar a luz natural e paga mais caro pela conta de luz. Eu posso me acostumar a gastar mais dinheiro, mas nada vai compensar as oportunidades que eu perdi por não ter aberto qualquer brecha pro vento entrar, pros sons provocarem os mais variados efeitos ou pros cheiros ativarem qualquer espécie de memória. Isso tudo só me faz concluir que to pagando mais por menos. Aliás, que nós estamos.
O problema é que as proporções que os eventos tomam não são tão impossíveis de se prever, mas são perfeitamente possíveis de se mascarar e isso inebria, entontece, mas não é fascinante. Por favor, meu Brasil, me mostre os meios e não os fins!

terça-feira, 6 de julho de 2010

os delírios de consumo de Kamila Simplício.

Quanto será que demora pra gastar todo o amor? Pra gastar tudinho como se fosse uma conta bancária bem gorda caminhando pra miséria? Queria eu que houvessem promoções de vez em quando... só pra estimular o crédito e movimentar a “economia”.
Odeio ter a sensação de que, ao invés, as prestações só se acumulam e fazem crescer minha dívida. Como será que se recorre ao câmbio nessas situações? Sim, porque tenho muuuito papel moeda, mas nada de ambiente propício para a permuta por qualquer produto. Isso mesmo. Qualquer produto! Nem me importo que não me sirva... que acabe estocado na prateleira ou guardado no fundo do armário. O que me interessa bastante é ficar paupérrima na compra de quantas mercadorias puder.
Afinal de contas, diriam os economistas que apesar da importância de se planejar criar poupanças, a gente não pode esquecer de alimentar o mercado. Dinheiro é pra se gastar, meu povo! Não fiquemos tão “mãos - fechadas”, guardando os suados trocadinhos no fim do mês, esperando por uma bela oportunidade.
Mas oportunidade de quê? Cadê essa compra dos sonhos que não chega nunca? O último vestido maravilhoso que tive não cabe mais em mim e não consigo achar outro que sirva como ele. Minha mãe diria: “é preciso paciência, minha filha. Nada como pesquisar bastante pra sondar o melhor preço e qualidade e achar o equilíbrio”. De qualquer forma, desesperada como estou pra sair no sábado à la feme fatale, ninguém me culparia – nem mesmo minha mãe – por gastar um pouquinho mais, mesmo encontrando uma qualidade não tão legal. Afinal de contas, dinheiro tem de sobra e pressa, aos montes! Em dias como os de hoje, nada como atacar de consumista e comprar qualquer coisa de vez em quando.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

deixando ir, por K.


A mulher, testando qual a sensação de voltar pra casa depois de tanto tempo pareceria, se pôs a refazer o caminho que outrora lhe era tão constante. À medida que o trajeto tomava forma, constatou as semelhanças com o guardado na memória como as mais próximas. Quando chegou à casa do amado – assustadoramente igual aos anos em que tomara um pouco como sua, iniciou um processo talvez de despedida.
A saudade com a qual teve de lidar e o ímpeto em bater à sua porta foram tão intensos como imaginara que seriam, mas orgulhou-se pela serenidade com a qual se pôs a controlá-los. A companhia constante de ambos pelos últimos anos aliada às tentativas de conciliar vontades opostas de mente e coração pareceram dar-la uma estranha noção do real, do possível e de proteção. Colocou-se a desejar que a janela abrisse para registrar como última lembrança o perfil do amado, que desconhecia estar sendo observado, ao invés das palavras cruéis ainda tatuadas em sua mente desde o último contato havido. As luzes do quarto ora ascendiam, ora apagavam levando embora e trazendo de volta as expectativas de vê-lo uma última vez, mesmo que de longe.
“Apareça, apareça, apareça, por favor.” – repetia e desejava mentalmente consigo.
Mas o desejo foi em vão. Tudo o que havia diante de si era a casa intacta - com suas janelas fechadas, de mãos dadas com a saudade e o lamento de não ser ouvida e não poder despedir-se à altura do grande amor que carregava no peito, na memória e com o qual construíra uma história digna da melhor forma de apaixonar-se: inesperadamente.
De qualquer forma, não importando mais de qual dos dois seria a culpa por terem se transformado em completos estranhos depois de tudo terminado, a mulher desculpou-se pelo estrago emocional provocado e voltou pra casa com outro grande desejo, além do de esperar que sua mente, assim como as palavras, tivesse poder: o de que as desculpas fossem recíprocas e lhe dessem o passaporte para um (re)começo.

presentes ausentes, por Janaína Lisboa.

Acordei pela manhã bem cedo e, assim, antes de tomar café, o coração e não o cérebro dominou o meu corpo. Esses dois estão em constante batalha pelo comando.

Apesar de velho, forte e freqüentemente dono do controle, o cérebro precisa de café pra funcionar. E o coração, que pula forte como uma menina de quatro anos brincando de corda, birrenta e traquina, aproveitou que o senhor ranzinza ainda estava abatido para tomar controle de tudo.

Seguindo a voz do coração, o corpo saiu pela casa procurando fita-adesiva, laços coloridos e papel. Se mexia tão elétrico que parecia um cardume de enguia feitas de lápis-de-cor. O cérebro meio ausente perguntou para o coração presente:

- Mas o que é isso?

- Uma surpresa.

- Que surpresa?

- Um presente, ora essa. – O coração presente criança não sabe guardar segredos.

- Para quem?

- Um menino.

- Por quê? É aniversário dele?

- Não.

- Então, por que tu vais dar um presente para ele?

- Não é só pra ele. Brincaremos juntos.

- Se ele te achar boba e te fazer chorar? Nem dá pra chamar isso que você está fabricando de presente. Nota-se que és um clichê ambulante.

O cérebro devia ser mais cordial, às vezes. O coração achou melhor não ataque-cardiar, se calar e apressar por que via que o cérebro, mesmo sem café, estava se despertando. Tum-tum, ele permaneceu trabalhando, trabalhando, tum-tum, ele persistiu batendo, batendo. O cérebro, por sua vez, prosseguiu com a contestação:

- Por que você não solta uma porção de palavras bonitas e faz de conta que é inteligente?

- Porque posar de maluca sempre foi muito mais divertido.

- E é por isso que você perde tempo nesse pacote feio de conteúdo duvidoso? Você quer enlaçá-lo ou se enforcar com esse monte de fita colorida? Olha, é melhor você sossegar, ninguém vai te julgar por não querer se expor.

O coração parou de bater por um milésimo de segundo, duvidoso achando que tivesse entretido com alguma espécie de prisão ou auto-sabotagem. Mas, sem sangue, o cérebro perdeu o oxigênio e ficou tonto, e o coração pequeno, marrento e de personalidade forte como ele só, pulsou esperançoso e prosseguiu colando o papel enrolado e amarrotado envolta da caixa de figuras estranhas.

Dentro da caixa, o cérebro via que algo brilhava, porém ele não ousava adivinhar o que continha naquele engodo: Um monstro? Uma bailarina? Uma bomba de chocolate? Ou de Hiroshima?

Afinal, dessas coisas que vêm do coração, ninguém sabe o que esperar.


* a melhor descoberta dos últimos tempos, da última semana: Janaína Lisboa.

domingo, 4 de julho de 2010

tributo ao fraterno, por K.

Sempre vou tender a respeitar aquilo que dura... que permanece... que teve tempo de amadurecer. Devemos isso a tudo que já teve tempo pra nascer e maturar e de todas as formas possíveis pra se aprender algo, talvez a mais poderosa seja através dessas 24h que se seguem dia após dia; ruga após ruga; fase após fase. Não considerar tempo essencialmente como relativo talvez seja um erro, mas sempre vou tender a baixar a guarda em reverência aos que essencialmente acumulam experiências. Aprender com a experiência dos outros é menos penoso do que aprender com a própria e é sempre muito bom constatar o saldo positivo que é melhorar com o tempo.
As amizades de outrora são magníficas em provar isso à medida que as vejo falar com tanta propriedade da pessoa que fui e na qual me transformei – ainda assim permanecendo capazes de me amar e respeitar com a lealdade que aprende a vir com os anos. A vocês, sou grata por me ajudarem a enxergar os defeitos e qualidades que me fazem ser quem sou e, principalmente, por me mostrarem o quanto vale a pena ser capaz de investir nas pessoas, acreditando que se pode enxergar o mundo por outros olhos, mesmo quando se ache que as possibilidades pra isso não são lá tão grandes.
As pessoas na verdade não são donas de si. Acabam pertencendo aos que as amam e, de todas as formas de amar, a amizade indubitavelmente é a mais pura e despida de falsas expectativas. Pra ser amigo, é preciso conhecer; e pra conhecer, são precisas as voltas que esse mundo dá junto com os momentos em que as máscaras caem e as personalidades afloram. Obrigada pela paciência em esperar que me despisse de algumas das minhas próprias máscaras. Amigo é amigo pra tudo e qualquer coisa, inclusive pros momentos em que se precisa relembrar da própria essência. Obrigada por me permitirem sonhar com os pés no chão e por fazê-lo comigo. Pertencer aos meus sempre será um enorme prazer e pertenço a cada um de forma diferente, mas com tudo o que tenho.
Aos amigos – em especial aos meus, um brinde com desejo de vida longa! “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.” Que Saramago esteja certo e que estejamos, nós amigos, a viajar sempre juntos até que nossos trajetos se prolonguem em memória, através do tempo.

O chamado, por K.

- Hoje, mais do que nunca, queria tê-lo tido ao meu lado.
Tenho chamado por você há tanto tempo que me perco nas vezes em que fantasiei o encontro onde tudo é tão puro, claro e simples. Você me abraça sem cobranças ou expectativas e me proporciona as mais variadas sinestesias. Nessa dança dos sentidos, nos reconhecemos - a olhos terceiros -  de forma lacônica, é verdade. Nada preciso dizer, posto que já sabes tudo. Sabes a maneira certa de olhar-me... arrancar-me o fôlego... roubar-me um beijo... acalmar e dar paz. Isso me basta... e bastaria por toda minha existência.Bastaria para me sentir protegida e segura; amada e querida; lembrada e desejada. 
Hoje, escrevo pra você, querido. Pra você e pros nossos longos e felizes dias que, sei, ainda virão! Gosto de pensar que ainda há algo de especial lá fora e pronto pra encher meus dias de alegria e satisfação. Algo que compense e satisfaça o tempo de espera, tantos desencontros e tantas decepções por pensar tê-lo encontrado. Você, pra mim, já teve tantos nomes... mas quando paro e penso, continuo sem pista alguma. Não sei como te chamas ou qual o teu cheiro, só sei de minha espera pelos longos e nostálgicos dias.

- Eu o quero tanto, tanto. 
Será que consegues me ouvir? Ouve meus anseios e caminha em minha direção, amado meu! Caminha para nossa história e para o belo à nossa espera. Assim te invoco e te quero para descobrir o melhor de mim... o melhor de nós dois.