sábado, 30 de outubro de 2010

acreditando em milagres, por K.

Me pergunto se querer tanto uma coisa pode, de fato, nos levar até ela e me pergunto se é possível querer o que não se sabe ainda. Quero tantas coisas sem delimitação ou forma estabelecidas. Quero o vasto, o abstrato e tô atrás do que nem sei. Paulo Coelho, em "O Alquimista", diz que o universo conspira a nosso favor quando se acredita nas coisas com vontade de fazer acontecer, da mesma forma como já li tantos outros defenderem que tudo se resume a ter fé.

Definir o que nos torna capazes de contrariar as leis da física, da razão e da lógica, ao dar respaldo para o que não se consegue medir ou explicar, é - por falta de uma palavra melhor - milagroso. Se for assim, talvez o milagre aconteça em mim todos os dias. Não o tipo de milagre que me remete a dogmas religiosos, mas o tipo que acontece quando lembro ainda ter motivos pra dar sentido aos meus anseios ou quando constato, apesar de tudo, ser reflexo de escolhas acertadas. Nada como a sensação de sentir orgulho de si mesmo e de um lar que nos lembre da própria essência. Em momentos como esse, o mundo inteiro é capaz de nos reverenciar e dar parabéns pelo bom trabalho.

Mas... e quando essa sensação parece velha quando se quer torná-la atual? A menina da risada sonora e de determinação teimosa tem parecido uma figura longe. Vai ver o meu milagre aconteça, da forma improvável que lhe é característica, quando renove minha percepção do que chame de lar. "Lar é onde o coração está". Sempre amei essa frase, mas a cabeça só fica sem rumo quando perde o foco com as perguntas: como deixo de lado a vontade que tá de ir embora? Como seguir me relacionando com o que não mais reconheço, nem mesmo de forma remota, como familiar?

- Talvez sentir mais com o coração e menos com a cabeça ajude, meu bem.

Ou talvez devesse parar de me empanturrar com inquietações. Quero berrar, mas é espantoso o quão surdo parece ser meu grito. Antes de ir embora, ainda queria dizer muitas coisas - dessas coisas que não se dizem costumeiramente. Dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe como serão ditas ou ouvidas - ou nem exatamente a que tipo de motivação estão a serviço. Antes de ir embora, queria trabalhar minha fé em me sentir encaixada. Antes de ir embora, talvez devesse voltar a falar de milagres...





terça-feira, 26 de outubro de 2010

Confissão, por Mário Quintana.

"Que esta minha paz, e este meu amado silêncio, não iludam a ninguém. Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta. Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios. Acho-me relativamente feliz porque nada de exterior me acontece… Mas, em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto!"

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

insônia filosófica, por K.

Mundo, mundo, vasto mundo... Quero teu cheiro, teu sabor, tuas cores, tua gente tão estranha. Quer coisa mais complexa do que o bicho homem? Mas quer coisa mais apaixonante do que tanto subjetivismo? Eu, com meu gosto tão peculiar pra gente, acho a nossa tragicomédia cotidiana o ciclo vicioso mais bem pregado que existe.

Aqui lembro, mais uma vez, da história do "nada se cria, tudo se transforma". Foi assim na época dos meus pais, dos meus avós, ... e vai ser assim pros meus filhos. O mundo sempre vai estar carente de boas iniciativas, de boas ações, com um monte de disparidade clamando coerência, com zilhões de contas pra pagar e problema pra resolver. Até que, numa bela manhã de sol, nos apareçam ícones pra toda uma geração - salve salve Buda, Martin Luther King, Gandhi, os Beatles, a princesa Diana - pra desempenhar o papel que, na minha opinião, sempre vai ser vital: o de dar o exemplo e servir de inspiração.

Se vivo fosse - que descanse em paz, o meu caro amigo Rosseau - adoraria registrar, pessoalmente, meu respeito por sua teoria. Rosseau creditava ao ser humano uma existência inata - pura, inocente, frágil, desprovida de males. Essa linha de pensamento coloca o homem como um "bom selvagem" e, por conseguinte, tido como ingênuo, sociável, sem vícios e capaz de condutas mais afetivas.

O que acabou com o conto de fadas foi o belo exemplo que demos ao longo de tantas chacinas, guerras e atitudes descabidas de maldade, na história do mundo. O choque com a análise de Rousseau é gritante - já que a violência serviu como meio pro alcance de fins dos mais escabrosos.

De qualquer forma, como uma boa dose de otimismo nunca é demais, a teoria do “Bom Selvagem” acredita ser possível associar a humanidade ao modelo de organização social vigente. Foi aí que, ciente do utópico estereótipo que acabara de criar, nosso digníssimo teórico nos deu um alento (aqui vem a melhor parte!): se nos basearmos em alicerces como a família, as amizades, o bom senso e o amor, nossa aproximação ao modelo proposto será facilitada. (Ufa!)

As escolhas, sempre as escolhas - para o bem ou para o mal - são as responsáveis por tudo. A inspiração pra isso, no entanto, não precisa vir em grande escala. Não precisa ser ícone pra muitos, mas basta que o seja pra mim, como indivíduo. Basta tocar – em escala mundial, ou não. Vinda de onde vier, seja de um amigo, da minha família, do meu professor, do meu autor favorito, basta que a inspiração exista e, por isso, já me torne grata porque através dela pude acessar o que reconheço como "o melhor de mim".

Essa, se não a melhor, é uma das melhores coisas que se pode fazer por outras pessoas. Inspirar o outro e, com nosso exemplo, deixar legados de admiração, orgulho e satisfação. O que seria de nós, e de tudo o que se pode ver, ouvir e tocar, se não houvesse a tal da identificação, da afinidade, da comunhão de idéias... daquele momento em que - É ISSO! - tudo agora parece fazer sentido? Tudo agora, pela forma como outra pessoa ou atitude foi capaz de fazer, enxergo as coisas com outros olhos?

Sou do time de achar que não há nada tão comovente - nem atos de amor ou ódio - quanto constatar que não se está sozinho. No fim das contas, o bicho homem foi feito pra viver em sociedade por alguma razão e isso nos leva a reflexões das mais válidas. A idéia de "vamos construir juntos?" sempre será capaz de me atrair até o último fio de cabelo. Sou de grupos, apesar de mais a favor ou melhor encaixada nos minoritários, tendo a valorizar mais o que é nosso, em detrimento do que é meu.

Tendo a valorizar os momentos em que escolhas são feitas, inspiradas por bons referenciais, em conjunturas que tornem possível nossa participação com o "melhor" que tivermos pra dar. Tendo a valorizar a multiplicação de "bons - selvagens", que façam escolhas, senão certas, pelo menos, sensatas. Afinal de contas, voltando a Gandhi, sejamos "a mudança que se quer ver no mundo". E essa, acredito eu, clama por ser das boas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Something to rely on, por K.

Tem coisa que não sai da gente. Nunca. Ranço. Vício de linguagem, de comportamento. Transformação que implica mudar em gênero, número e grau. Taí um dos desafios mais difíceis. Já cansei de ouvir ou falar que ninguém muda ninguém, mas – se me é dada alguma licença poética - desconfie, porque nem sempre sou da minha opinião. Só você mesmo pra avaliar se isso é possível e o quão dispendioso será. O quão (des)construtivo ou, ainda, arruinador.

Seja como for, não há nada de errado com a ruína, com o bagaço, com os cacos. Nada se perde, tudo se transforma e a partir de um quase nada de sucesso e um tanto de fracasso, a gente (re)imenda, (re)cola e (re)faz. Tem mais tentativas do que acertos aqui, e isso é deliberado.

Por que não?

- Não há nada de errado com, além de querer, tentar mudar. Mesmo que depois não se consiga. Talvez tudo deva ser avaliado a partir do esforço e, pra isso – até pra tentar mudar – é preciso um bocado de reflexão e coragem.

Por outro lado, se bastar com tentativas parece pouco e quando não se é treinada/educada/preparada pra ficar com elas - e sim com resultados que nos orgulhem por completo – a sensação de fracasso bate à porta e escancara mesmo. Ainda assim, só podemos culpar a nós mesmos pela falha na estratégia. There´s no one else to blame, apesar de ser tentador pensar que “quando a culpa é minha, a coloco em quem eu quiser”.

É insano repetir atitudes esperando resultados diferentes e essa talvez seja a concepção, muitas vezes falha, do que venha a ser mudança. Chamo isso de depositar bons ou maus resultados em outras pessoas, querendo – às vezes - crédito por isso, e fazendo com que tudo gire ao sabor das circunstâncias e da conveniência. Outro dia li e não pude deixar de concordar: “como a vida é forte em suas algemas”, mas, além disso, como somos covardes conosco.

Voltando ao esforço e ao quanto ele merece ser levado em conta, pelo menos vou tentando. Voltando ao querer mudar e ao quanto isso me faz ciente de minhas falhas, pelo menos há reflexão. Voltando às escolhas e aos lugares em que elas nos levam, pelo menos há aprendizado. Traduzir dores, anseios, cores nunca vai ser fácil. A regra talvez não seja tão clara, mas: enquanto há vida, há busca.

Aqui, não posso deixar de fazer menção, mais do que honrosa, às palavras tão reconfortantes de Liz Gilbert, responsável por tantas gargalhadas, choros e reflexões bem-vindas nos últimos tempos. É preciso ter em mente que, "se você tem a coragem de deixar para trás tudo que lhe é familiar e confortável e parte em busca da verdade - para dentro ou para fora - e se você tem mesmo a vontade de considerar tudo que acontece no meio do caminho como uma pista, e se você aceitar cada um que encontre como professor, e se estiver preparada, acima de tudo, para encarar - e perdoar - algumas realidades bem difíceis sobre você mesma, então a verdade não lhe será negada."



E a verdade dói. Dói, mas é bom. Do tipo de dor que vicia, e purifica.