terça-feira, 26 de julho de 2011

- do alto do meu sistema límbico, por K.

*** Que se danem a ABNT e as regrinhas pra citações. O post de hoje é literalmente em homenagem a um mooonte de gente que vive falando por mim quando os leio e em Proust, quando diz que "na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo".  Não me resta nada além de concordar e jogar aqui. 

- O que vale a pena, no final das contas, é isso: fazer e sentir as coisas com carinho e afeto.  

Falo isso em sinal do quanto concordo com idéias como as de Clarice e me sinto crente da mais completa verdade universal quando as leio. "Amar os outros é a única salvação individual que conheço: Ninguém estará perdido se der amor e as vezes receber amor em troca" me chama à reflexão de que é assim que realmente se vive através do tempo que não nos espera. Tempo que matura, que esmorece, que passa e não perdoa. Tempo que urge e não me espera. Que custa e passa tão rápido.
Só não quero fechar os olhos bem velhinha e admitir que "parece que foi ontem" e não fiz nada de digno com isso tudo ao meu redor. "Com o tempo não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram, mas vamos ficando sozinhos uns dos outros". Isso me faz lembrar do quanto, assim como Quintana, morro de medo da solidão como o diabo foge da cruz. Temo perder os que amo e temo perder a mim mesma.

- Afinal de contas, sem amor, só a loucura.

E esse tipo de loucura é o pior de todos. O que se apossa da gente como água escassa que mata a sede em dias de verão. Aos pouquinhos e de forma sorrateira, como quem não quer nada. Muito embora desejar escapar da solidão seja batalha perdida, é muito custoso ter real ciência dos próprios limites. 
Amizade e amor não se procuram, não se imaginam, não se desejam. São exercitados. Essas coisas não se entendem ou se dão forma. Fazer isso significa privá-las da liberdade com que têm de acontecer naturalmente. Mesmo que depois me deixe invadir por uma ignorância tácita e consciente, de vez em quando bato o pé por não ver tão bem com o coração quanto gostaria. A sensação de verdadeira ignorante com relação aos assuntos do sistema límbico - sim, porque é lá que o cérebro processa as emoções -  pro post de hoje, mais uma vez me valho de palavras emprestadas: "Compreender é sempre um erro". É ruim, mas pelo menos se sabe que se está em plena condição humana. A lucidez é um luxo que nem todos se podem permitir e aqui, como não poderia deixar de ser, quem fala por mim é Cora: "Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas... E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida". 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

- tão Felipa, por K.

De todos os exercícios humanos, a busca sempre lhe pareceu o mais exaustivo.  Relacionavam-se de forma ciclicamente (des)construtiva: a busca e ela. Felipa tinha fome, sede e expectativa daquilo que não conhecia e do que queria tornar familiar. Aguçar a curiosidade sempre fora uma das formas mais eficientes de prender-lhe a atenção e em doses de inveja, em maior parte branca, desejava coisas e pessoas em medidas estranhas. Queria o desprendimento, o desapego e a capacidade de não enraizar daqueles livres por convicção e não por rebeldia. Dos libertos de espírito. A liberdade, havia muito tempo, lhe parecera mais atraente e sedutora em detrimento daquilo que lhe prendia ao chão, ao lugar comum das pessoas. Não tinha nada em comum com pertencer a lugares de forma catalogada. Nunca gostou, mesmo ciente de que é maneira de familiarização com o mundo ao redor, de etiquetar.

- Os copos de vidro pertencem ao armário central. Os de plástico, ao da esquerda. As xícaras, porque herança de família, devem estar cuidadosamente expostas ao longo da prateleira da cozinha. Em destaque.

Tudo assim. No seu devido lugar e de fácil acesso, posto em prioridade por ordem de material, cor, função e valor sentimental.  Ambientes tão cheios de ordem e protocolo a incomodavam até o último fio de cabelo como pedra em sapato já apertado. Não podia se deixar submeter, mas com o pouco de sensatez que ainda lhe restava, também não lhe era possível ser tão quadrada a ponto de encarar tudo como submissão ou tolhimento. Existiam arestas a aparar. A vida precisava de ordem por algum motivo justo e a impressão que vinha tomando do mundo era a de que mais valia ter controle do que praticar o desperdício.
Existiam pessoas por quem valia a pena organizar a bagunça, ceder, tolher vontades e impulsos. Na verdade, existiam pessoas e motivos legítimos pra isso. Com esforços mínimos de concentração, relembrava o quanto já ouvira que pessoas assim como ela – cheia de vontades e de opinião sobre tudo – tinham mais dificuldade em pertencer. No entanto, se sentia tão delas, tão do mundo, tão filha, tão irmã, tão amiga, tão namorada. Tão repleta das etiquetas que não gostava de dar.

- Afinal, que somos nós senão um amontoado de papéis representados, etiquetas fixas em carne viva e um bocado de rebeldia?


Havia, no entanto, um tempo preciso para livrar-se de, senão todas, algumas delas. O de Felipa havia certamente chegado. Era chegada a hora de passar, limpar, organizar copos e xícaras em seus devidos armários e prateleiras. Queria mais era poder dizer “A casa é sua, pode entrar. Quarto, sala e cozinha, agora cheirosos e limpinhos, em ordem para melhor recebê-los”. Para sua saúde física, e mental principalmente, era preciso voltar à tentativa de pertencer sendo livre. À tentativa de, senão com tudo em absoluta ordem e protocolo, conseguir achar-se na própria bagunça. Queria verdadeiramente ser e não só estar.