domingo, 19 de dezembro de 2010

apetite voraz, por K.

já sentiu vontade de comer não sei o quê? pois eu tô com vontade de escrever não sei o quê. E como toda boa impulsiva-impaciente-apressada da vida, já joguei as palavras, esperei que fizessem sua mágica e de repente, não mais que de repente, me rendessem bons textos ou afins. Ou mesmo ruins, mas que rendessem alívio. Como se, escrevendo, alguém fosse falando por mim - exatamente como acontece quando a gente lê do que gosta. Já tentei dos meus artifícios, é verdade: música, poesia, prosa, crônica, substâncias etílicas - mas paro por aí porque a gente não usa drogas. Pra mim, já bastam as citadas acima.

- problema é, elementar minha cara autora, as palavrinhas aí dentro parecem da máxima "há tempo pra tudo".

pois que se dê tempo. mas do tipo rápido, no melhor estilo "é pra já". que ele faça crescer, morrer, ressucitar ou whatever!... mas que ele as leve daqui de dentro.




- elas quem?

as palavras, ora bolas. elas andam sufocando, queimando, me deixando indigesta.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ainda lembro, por K.

Passou-se muito tempo, mas parecia não ter passado tempo algum. Curiosidade pulsante, agora era capaz de constatar tudo como ainda lhe era vivo na memória. Os olhos ainda eram expressivos como da primeira vez em que fora fisgada por eles, de mãos dadas com traços másculos que, derrotada frente à tentativa de resisti-los, ainda lhes tiravam o fôlego.

No entanto, realista como era, a contra gosto admitiu o apagar de detalhes que o tempo traz consigo. Não parecia lembrar-se das mãos longas com clareza ou mesmo do cheiro do perfume, mas lentamente reconheceu-se dona. Não dele, mas da lembrança fiel de mãos, olhos, boca, cheiro e – memória sonora e fotográfica das boas – principalmente das gargalhadas intercaladas com riso sério.

Despretensiosamente, apaixonou-se outra vez pela mesma pessoa como fazem os casais que se reconhecem par por muito tempo. Ainda que os anos houvessem mudado formas e percepções de mundo, o que claramente era o caso, a mudança não parecia ter sido estrutural. Ainda enxergava muito do que não gostava, mas que seria aquele palpitar acelerado se não o aceitar de qualidades e defeitos?

Vivenciar o momento em agridoce dos mais saborosos era lamentavelmente perturbador, mas depois de tudo pronto, estavam ali. Falavam sem parar de amenidades das mais cotidianas e reagiriam de formas das mais receptivas a qualquer coisa dita. Pareciam querer dar boas vindas um ao outro, sem perceberem-se mudos, cheios apenas de amor sofrido e calado.

- Queríamos tanto salvar o outro. Amor é matéria de salvação.

Foi o que me disse Clarice, dada a minha licença poética. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

a menina, por K.

Inspirada por um dos jargões natalinos mais conhecidos, pergunta:

- Então é Natal e o que você fez?

Engraçado como "fazer" sempre remete a gente à ação, comissão. Trapaceiro, isso. A menina, de forma inversa, pensava no que deixara de fazer, deixando o pensamento voar, pairar, quase pousar, mas em seguida ir embora. Burlava os próprios sentidos e então adormecia num sonho bom. Sonho de menina aprendiz e curiosa. Numa espécie de realidade paralela, vivia suas lembranças, seus amores e espreitava as memórias mais gostosas, com sabor de fruta mordida (sempre adorou essa frase).
Tinha gosto daquilo que não sabia dar nome. Impulsiva como sabia ser, a menina reconhecia arrependimentos quase que exclusivamente ligados aos momentos em que tentou ser omissa, confundindo paciência com omissão.

- Melhor pecar por excesso que por falta.

Essa era sua forma de amenizar a vida sempre intensa, as decisões passionais e o turbilhão de tudo o que lhe perturbava a mente. Esperta como só ela, melhor era auto consolar-se do que reparar erros de ontem. Pegava-se tentando remediar coisas que não admitia nem pra si mesma sem perceber, no entanto, que admitir aquilo que não se quer significava estar ciente dos erros. Consciência é alguma coisa que faz a gente pensar, repensar e pensar de novo - mas por essas coisas complicadas não demonstrava o menor interesse. Odiava deitar a cabeça no travesseiro e ter de calar pensamentos graves e agudos. Vai ver por isso viciara-se em colocar pra fora tudo o que lhe vinha em mente, metendo quase sempre os pés pelas mãos.


Mente travessa e brincalhona, só não contava com momentos onde reconheceria ter dito ou feito o que não devia. Mente travessa e brincalhona, só não contava ser pega de surpresa por momentos de reflexão. Não gostava de pegar-se absorta em pensamentos e, por isso, não lhe dava os créditos que merecia por ser perspicaz. Traduzir dores era mesmo difícil, mas - como diriam os romances baratos - não há como fugir do inevitável, do destino, do carma ou de qualquer coisa da qual não se possa escapar. Naquele fim de tarde, não havia como fugir da saudade.