Inspirada por um dos jargões natalinos mais conhecidos, pergunta:
- Então é Natal e o que você fez?
Engraçado como "fazer" sempre remete a gente à ação, comissão. Trapaceiro, isso. A menina, de forma inversa, pensava no que deixara de fazer, deixando o pensamento voar, pairar, quase pousar, mas em seguida ir embora. Burlava os próprios sentidos e então adormecia num sonho bom. Sonho de menina aprendiz e curiosa. Numa espécie de realidade paralela, vivia suas lembranças, seus amores e espreitava as memórias mais gostosas, com sabor de fruta mordida (sempre adorou essa frase).
Tinha gosto daquilo que não sabia dar nome. Impulsiva como sabia ser, a menina reconhecia arrependimentos quase que exclusivamente ligados aos momentos em que tentou ser omissa, confundindo paciência com omissão.
- Melhor pecar por excesso que por falta.
Essa era sua forma de amenizar a vida sempre intensa, as decisões passionais e o turbilhão de tudo o que lhe perturbava a mente. Esperta como só ela, melhor era auto consolar-se do que reparar erros de ontem. Pegava-se tentando remediar coisas que não admitia nem pra si mesma sem perceber, no entanto, que admitir aquilo que não se quer significava estar ciente dos erros. Consciência é alguma coisa que faz a gente pensar, repensar e pensar de novo - mas por essas coisas complicadas não demonstrava o menor interesse. Odiava deitar a cabeça no travesseiro e ter de calar pensamentos graves e agudos. Vai ver por isso viciara-se em colocar pra fora tudo o que lhe vinha em mente, metendo quase sempre os pés pelas mãos.

Mente travessa e brincalhona, só não contava com momentos onde reconheceria ter dito ou feito o que não devia. Mente travessa e brincalhona, só não contava ser pega de surpresa por momentos de reflexão. Não gostava de pegar-se absorta em pensamentos e, por isso, não lhe dava os créditos que merecia por ser perspicaz. Traduzir dores era mesmo difícil, mas - como diriam os romances baratos - não há como fugir do inevitável, do destino, do carma ou de qualquer coisa da qual não se possa escapar. Naquele fim de tarde, não havia como fugir da saudade.