- Não se preocupe. Não há nada que se mova ou aconteça tão rápido quanto a velocidade da luz.
Enfim, era inevitável concordar. Mas mesmo assim, a decepção. Quase nenhuma outra idéia lhe pareceria melhor que, à velocidade súbita com a qual coração falara mais alto, ficasse afônico. Fora fisgada por seu doce vampiro e agora ardia em desejo pulsante de repeteco. A luz sobre a ignorância humana parecia cristal claro: não havia mais remédio. Martina então se dava conta da insignificância de mais uma paixão platônica frente aos milhares de acontecimentos diários de exatos quatrocentos zilhões de habitantes do planeta Terra. Nem a posição fetal capaz de confortá-la como de costume ou as lágrimas já em poças no chão pareciam funcionar.
O mundo era um lugar cruel e tentador pra se estar vivendo essa noite e seu pequeno reduto – que secretamente sempre fora o banheiro – cumpria com a função de devoto abrigo. Os velhos azulejos azuis, a iluminação em amarelo quase penumbra e as pequenas frestas da janela eram testemunhas de mais um momento de desespero ébrio. Nada sabia fazer com o que tinha diante de si, com a dor de cabeça de proporções homéricas ou a memória mirrada das coisas - amigas fiéis de bebedeiras constantes.
A pobre menina rica de sofreguidão desmedida nada fazia a não ser constatar a armadilha da qual era cativa. Apaixonara-se, coitada. Queimada de brincar com fogo, que restava agora senão a embriaguez? Pra tomar gim, então? Só podia ser por causa de homem mesmo. Mais cinco goladas daquelas, não lembraria de nada quando o sol, travesso, teimasse em nascer.
Viva – ou imbecil - como ela só, lhe parecia complicado decidir entre esquecer ou lembrar cada mínimo tico detalhe como sabia que aconteceria. Queria mudança de hábitos, de rotina, mas sentia-se culpada por desejar que viessem sem o menor esforço seu. "É mais forte do que eu" - pensava consigo.
Do auge da experiência de seus 23 anos, os costumes não mudavam. Mais uma vez como em milhares de tantas outras, tentando convencer-se, repetia (in)verdades clichês. Nauseada pelas próprias desilusões, outra vez estava decidida a nunca-nunquinha-jamais entregar corpo e coração à mesma pessoa e – pior! – ao exato mesmo tempo. Tanta disciplina e trabalho mental desde a última embriaguez por gim (sim, ele era o melhor amigo para a cura de dores de amor), não mereciam negligência.
Amanhã acordaria triunfante para o dia da mutação das coisas. Amanhã se daria conta de que estava mesmo mudada. Do contrário, não haveria explicação para negar o entre lençóis mais querido da década. Amanhã, feliz da moça e mesmo que no chão de seu banheiro cinco estrelas caídas, acordaria tendo encontrado seu lugar no mundo. Martina, outrora devota da máxima “não existe pecado do lado de baixo do equador”, haveria de aceitar que dias assim lhes seriam pretéritos. Agora, celibatária e puritana, desejava livrar-se das tentações desse mundo, em busca do amor verdadeiro que nada tinha haver com sexo e outras sacanagens.
A pobre menina rica de sofreguidão desmedida nada fazia a não ser constatar a armadilha da qual era cativa. Apaixonara-se, coitada. Queimada de brincar com fogo, que restava agora senão a embriaguez? Pra tomar gim, então? Só podia ser por causa de homem mesmo. Mais cinco goladas daquelas, não lembraria de nada quando o sol, travesso, teimasse em nascer.
Viva – ou imbecil - como ela só, lhe parecia complicado decidir entre esquecer ou lembrar cada mínimo tico detalhe como sabia que aconteceria. Queria mudança de hábitos, de rotina, mas sentia-se culpada por desejar que viessem sem o menor esforço seu. "É mais forte do que eu" - pensava consigo.
Do auge da experiência de seus 23 anos, os costumes não mudavam. Mais uma vez como em milhares de tantas outras, tentando convencer-se, repetia (in)verdades clichês. Nauseada pelas próprias desilusões, outra vez estava decidida a nunca-nunquinha-jamais entregar corpo e coração à mesma pessoa e – pior! – ao exato mesmo tempo. Tanta disciplina e trabalho mental desde a última embriaguez por gim (sim, ele era o melhor amigo para a cura de dores de amor), não mereciam negligência.
Amanhã acordaria triunfante para o dia da mutação das coisas. Amanhã se daria conta de que estava mesmo mudada. Do contrário, não haveria explicação para negar o entre lençóis mais querido da década. Amanhã, feliz da moça e mesmo que no chão de seu banheiro cinco estrelas caídas, acordaria tendo encontrado seu lugar no mundo. Martina, outrora devota da máxima “não existe pecado do lado de baixo do equador”, haveria de aceitar que dias assim lhes seriam pretéritos. Agora, celibatária e puritana, desejava livrar-se das tentações desse mundo, em busca do amor verdadeiro que nada tinha haver com sexo e outras sacanagens.
- Pobre Martina, desistia de uma ilusão para acreditar em outra.
Pena era que, memória fresca das fases promíscuas, só queria voltar duas quadras à esquerda. Onde os beijos eram arrepio; a pele, libido.
- O que será? Que será? Que vive nas idéias desses amantes?