No ano dos meus 23 anos, e tentando ajustar todas as idades que abarco, percebo que são muitas. Existe a cronológica, a da memória, a de espírito. Mas ainda não aprendi a negociar com elas... a idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente. E sinto ter tantas. Parece que o corpo de ancas largas, cabelos negros e olhos bem marcados já serviram de abrigo pra muitas versões e anos a fio.
Adaptando García Marquez, “talvez o que aconteça é que não agüentemos o peso”. O peso da consciência, das pessoas que recebemos e expulsamos, dos ciclos, do passar dos anos. As idades todas, quando em soma, na verdade podem ser traiçoeiras à medida que me fazem dar boas vindas à experiência, mas me tornam pesada de percepções. Sou mesmo contraditória e, ainda que tente fugir de adágios populares, o desafio é aceitar que tudo tem seu lado bom e ruim. E, principalmente, ter serenidade pra saber lidar com esse tal lado ruim.
Lado B que sempre há de vir como o acessório segue o principal. É isso o que nos torna especiais e diferentes na essência, talvez. O que nos torna melhores. Melhores a partir de um amontoado de coisas ruins e das reações diante do negro. Sou uma velha de 23 anos, com um futuro enorme pela frente e já vivendo os planos que ainda nem saíram do papel. Sim... porque tenho pressa. Tenho pressa e sinto o peso, meu amigo. O hoje já começou e tenho mais é que pensar no amanhã porque ele vai chegar até o dia em que estiver a salvo dos tormentos da memória. Memória que não falha, ainda que por vezes tenha preferido que me fosse mirrada. Memória que não falha, e a quem sou grata por lembrar de pretéritos felizes com a clareza que merecem.
Hoje, sou uma velha de 23 anos... escrevendo memórias póstumas, mas com o coração feliz. Porque descobri, pra minha alegria, que é a vida e não a morte que não tem limites. E é pra ela e por ela que tenho pressa, enquanto há tempo e estou vivinha da silva.