O coração de ninguém deveria ser lugar pra pessoas cansadas. Descansar o coração em alguém é algo de que todo mundo precisa, mas é perigoso e arriscado. Não se pode dormir até o ponto em que se deixa de somar. Agora escuto Marisa e ela ta cantando: “Eu não quero ganhar; eu quero chegar junto; Sem perder. Eu quero um a um”. Não quero um amor cansado de novo. Cansado de amar errado, esperançoso pela mudança; pelo momento em que acordemos um dia e nos reconheçamos par. Achando que, se eu me esforçar e fizer tudo direitinho, vou acabar me convencendo de que ele é sim um bom partido, capaz de valer tanto crédito.
Hoje, depois de mais um coração partido, continuar pensando assim acabaria sendo a passagem pra mais uma desilusão. Não fui de muitos amores, é verdade. Mas me doei muito – embora de formas diferentes – pra cada um. De formas diametralmente diferentes, eu diria. Sempre achei que as pessoas são capazes de atingir seu potencial emocional máximo quando em um relacionamento e, em todas as minhas tentativas, quis me certificar de que o fizessem comigo. Talvez porque eu mesma quisesse me provar capaz de atingir o meu potencial – uma vez mais.
Agorinha, tentando tornar minha insônia produtiva, percebo o quão achar isso possível é uma batalha perdida desde o início. Ou talvez esteja percebendo que o outro é o amor que eu tenho por ele e que, nem de perto, foi o bastante. Talvez por minhas tentativas de “adestrar” o sentimento. Como da última vez que tentei amar, tudo foi tão sem resguardos, cá estou eu... pela metade. Me sentindo injustiçada pela forma como baixei a guarda, pela forma como fui driblada e pela forma como fugiram pra acabar a partida em outro lugar. Problema é já saber que certas coisas são feitas pro belo que é surgir naturalmente e, ainda assim, achar possível exercer controle. Alguém já conseguiu amar porque ia tentar amar? Alguém – sinceramente - já conseguiu fazer algum relacionamento dar certo premeditadamente? Alguém – de tanto tentar – já conseguiu reconhecer no outro aquele por quem tanto esperava? Assim... como recompensa pelo esforço e disciplina na arte de se deixar envolver?
Parabéns pelo esmero pros que, milagrosamente, vierem a responder “sim” e:
- depois passa aqui em casa pra tomar um café e compartilhar o segredo, ta?
Provavelmente me fará sentir aliviada por, pelo menos, descobrir que minha tática dos últimos tempos funcionou pra alguém.
Como se pode estar junto sem estar? Como se pode construir dois com um só e não a partir de? Como é que se constrói alguma coisa mentindo, sustentando o que não se é? Como se suga tanto esperando que o outro se contente com migalhas? Mas, principalmente, como pude achar que eu me contentaria, que isso me bastaria e seria merecedora de tão pouco?
Como alguém que se julga sensata se tornou a ingênua-maluca-da-vez e como o tal do “não se reconhecer” é complicado. Verdade seja dita, o que há de me provocar foco agora é reabilitação. Reabilitação pra mim, pro que eu entenda como "soma", e portas abertas pra minha reviravolta!
Vai ver é esse mundo caótico mudando quando ninguém pode prever. Puxando o nosso tapete, fazendo faxina na vida alheia e deixando a gente pra trás, junto com o amontoado do supérfluo. Meu último amor me alerta pra não me apegar a nenhuma idéia inútil sobre quem sou, o que represento, a quem pertenço ou que função eu poderia ter sido criada para executar. Ele pura e simplesmente me confirma que é possível que eu conheça meus limites, meus valores e minhas responsabilidades a partir do turbilhão de dimensões que somam aquilo que eu sou. Eu e mais ninguém. Fazendo isso por mim e não por motivos parecidos com “pra ser digna de alguém que me queira”.
Porque – por mais clichê que as próximas linhas pareçam – não há ninguém que me queira tanto quanto a pessoa que vos escreve. Mesmo que ainda ingênua, mesmo que tão questionadora. A única condição pra qual não há trato é a de que se faça juízo tão pequeno de mim. Não posso aceitar menos que isso. Não de novo.
*um lembrete: quando você está se esforçando além da conta para explicar alguma coisa, quando está procurando as palavras certas pra manter sua linguagem simples e direta, não transforme isso em um bicho-de-sete-cabeças. Simplesmente fale. Fale devagar que eu entendo rápido!