De todos os exercícios humanos, a busca sempre lhe pareceu o mais exaustivo. Relacionavam-se de forma ciclicamente (des)construtiva: a busca e ela. Felipa tinha fome, sede e expectativa daquilo que não conhecia e do que queria tornar familiar. Aguçar a curiosidade sempre fora uma das formas mais eficientes de prender-lhe a atenção e em doses de inveja, em maior parte branca, desejava coisas e pessoas em medidas estranhas. Queria o desprendimento, o desapego e a capacidade de não enraizar daqueles livres por convicção e não por rebeldia. Dos libertos de espírito. A liberdade, havia muito tempo, lhe parecera mais atraente e sedutora em detrimento daquilo que lhe prendia ao chão, ao lugar comum das pessoas. Não tinha nada em comum com pertencer a lugares de forma catalogada. Nunca gostou, mesmo ciente de que é maneira de familiarização com o mundo ao redor, de etiquetar.
- Os copos de vidro pertencem ao armário central. Os de plástico, ao da esquerda. As xícaras, porque herança de família, devem estar cuidadosamente expostas ao longo da prateleira da cozinha. Em destaque.
Tudo assim. No seu devido lugar e de fácil acesso, posto em prioridade por ordem de material, cor, função e valor sentimental. Ambientes tão cheios de ordem e protocolo a incomodavam até o último fio de cabelo como pedra em sapato já apertado. Não podia se deixar submeter, mas com o pouco de sensatez que ainda lhe restava, também não lhe era possível ser tão quadrada a ponto de encarar tudo como submissão ou tolhimento. Existiam arestas a aparar. A vida precisava de ordem por algum motivo justo e a impressão que vinha tomando do mundo era a de que mais valia ter controle do que praticar o desperdício.
Existiam pessoas por quem valia a pena organizar a bagunça, ceder, tolher vontades e impulsos. Na verdade, existiam pessoas e motivos legítimos pra isso. Com esforços mínimos de concentração, relembrava o quanto já ouvira que pessoas assim como ela – cheia de vontades e de opinião sobre tudo – tinham mais dificuldade em pertencer. No entanto, se sentia tão delas, tão do mundo, tão filha, tão irmã, tão amiga, tão namorada. Tão repleta das etiquetas que não gostava de dar.
- Afinal, que somos nós senão um amontoado de papéis representados, etiquetas fixas em carne viva e um bocado de rebeldia?
Havia, no entanto, um tempo preciso para livrar-se de, senão todas, algumas delas. O de Felipa havia certamente chegado. Era chegada a hora de passar, limpar, organizar copos e xícaras em seus devidos armários e prateleiras. Queria mais era poder dizer “A casa é sua, pode entrar. Quarto, sala e cozinha, agora cheirosos e limpinhos, em ordem para melhor recebê-los”. Para sua saúde física, e mental principalmente, era preciso voltar à tentativa de pertencer sendo livre. À tentativa de, senão com tudo em absoluta ordem e protocolo, conseguir achar-se na própria bagunça. Queria verdadeiramente ser e não só estar.
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