Chovia muito e a cidade parecia lamentar, talvez arrependida, as tantas vidas que levara dessa forma. A água infiltrou-se por todos os espaços e carregou consigo as alegrias, as tristezas, os sonhos, os desabores... o tempo. A sensação de perder tudo assim... sem espaço pra bolar um plano de fuga ou apegar-se a qualquer tábula de salvação, deve ser mesmo indescritível e não é esse meu objetivo nas próximas linhas.
A cidade, o estado e o país dão as mãos em sinal de luto por tanto que “descansa” na lama que ficou depois da enxurrada. Choram como as crianças que ficaram sem mãe; os maridos, sem esposa; as famílias, sem casa. Choram pelo sentimento de culpa e pelo inevitável senso de solidariedade – com uma pitada de alívio por saber que o jardim do vizinho, hoje, não é mais bonito que o seu – característico dessas horas. Ambos demonstrativos do quanto não se sabe prevenir ao invés de remediar, no Brasil. Depois de uma tragédia como as últimas chuvas no Nordeste, os fundos de amparo são reativados e as arrecadações ganham mais força. E quem pode nos culpar? Agora, com tudo em ruínas, o urgente é manter-se inteiro pela sobrevivência.
Vejam que, ao falar de solidariedade, falei de senso dela, não de sentimento. Idéia, senso ou noção do ser solidário, qualquer “bom” ser humano já deve ter tido; mas vivenciar e realmente decidir repassar adiante, aí sim vem o desafio e é onde boa parte de nós – classe média cada vez mais baixa e não alta, sofremos o soco no estômago. Ocupamos um lugar muitas vezes (in)convenientemente pensado. Afinal de contas, é bastante conveniente estarmos a uma distância “saudável” do que seja pobreza-miséria, mas essa mesma distância não é grande o bastante pra impedir que as poças lentamente se formem e demonstrem que a força da água pode afetar também a nossa própria casa. Não somos como a rica - e muitas vezes alienada - 1ª classe, cujo referencial de menos passou a milhões de quilômetros do que viesse a ser poupar. Sim, porque no Brasil ou se tem dinheiro o bastante pra não caber na própria cueca ou se é preso por levar uma lata de margarina do supermercado.
O que me pergunto é: o quão silencioso é o grito da miséria, da favela, das famílias destruídas pela chuva? E a resposta, apesar de triste, me vem fácil: é silencioso daquele tipo de silêncio que cala e consente. Consente o assistencialismo, a ajuda barata que não dura. Entendam bem que minha intenção aqui absolutamente não é a de criticar os esforços reunidos para dar de comer a quem tem fome e a de beber a quem tem sede. Pra mim, isso não é assistencialismo. É conter danos pra que o chuvisco não vire chuva e depois não vire chuvarada e depois não vire aguaceiro. É a oportunidade fronteiriça de ter chances de prevenir. O problema está, mais uma vez, em acomodar-se. A gente se acostuma muito fácil às coisas. Se acostuma a ter um apartamento com janela, mas que não abre porque ta emperrada. E porque não abre, decide pôr uma cortina. E porque tem cortina, decide não aproveitar a luz natural e paga mais caro pela conta de luz. Eu posso me acostumar a gastar mais dinheiro, mas nada vai compensar as oportunidades que eu perdi por não ter aberto qualquer brecha pro vento entrar, pros sons provocarem os mais variados efeitos ou pros cheiros ativarem qualquer espécie de memória. Isso tudo só me faz concluir que to pagando mais por menos. Aliás, que nós estamos.
O problema é que as proporções que os eventos tomam não são tão impossíveis de se prever, mas são perfeitamente possíveis de se mascarar e isso inebria, entontece, mas não é fascinante. Por favor, meu Brasil, me mostre os meios e não os fins!
A cidade, o estado e o país dão as mãos em sinal de luto por tanto que “descansa” na lama que ficou depois da enxurrada. Choram como as crianças que ficaram sem mãe; os maridos, sem esposa; as famílias, sem casa. Choram pelo sentimento de culpa e pelo inevitável senso de solidariedade – com uma pitada de alívio por saber que o jardim do vizinho, hoje, não é mais bonito que o seu – característico dessas horas. Ambos demonstrativos do quanto não se sabe prevenir ao invés de remediar, no Brasil. Depois de uma tragédia como as últimas chuvas no Nordeste, os fundos de amparo são reativados e as arrecadações ganham mais força. E quem pode nos culpar? Agora, com tudo em ruínas, o urgente é manter-se inteiro pela sobrevivência.
Vejam que, ao falar de solidariedade, falei de senso dela, não de sentimento. Idéia, senso ou noção do ser solidário, qualquer “bom” ser humano já deve ter tido; mas vivenciar e realmente decidir repassar adiante, aí sim vem o desafio e é onde boa parte de nós – classe média cada vez mais baixa e não alta, sofremos o soco no estômago. Ocupamos um lugar muitas vezes (in)convenientemente pensado. Afinal de contas, é bastante conveniente estarmos a uma distância “saudável” do que seja pobreza-miséria, mas essa mesma distância não é grande o bastante pra impedir que as poças lentamente se formem e demonstrem que a força da água pode afetar também a nossa própria casa. Não somos como a rica - e muitas vezes alienada - 1ª classe, cujo referencial de menos passou a milhões de quilômetros do que viesse a ser poupar. Sim, porque no Brasil ou se tem dinheiro o bastante pra não caber na própria cueca ou se é preso por levar uma lata de margarina do supermercado.
O que me pergunto é: o quão silencioso é o grito da miséria, da favela, das famílias destruídas pela chuva? E a resposta, apesar de triste, me vem fácil: é silencioso daquele tipo de silêncio que cala e consente. Consente o assistencialismo, a ajuda barata que não dura. Entendam bem que minha intenção aqui absolutamente não é a de criticar os esforços reunidos para dar de comer a quem tem fome e a de beber a quem tem sede. Pra mim, isso não é assistencialismo. É conter danos pra que o chuvisco não vire chuva e depois não vire chuvarada e depois não vire aguaceiro. É a oportunidade fronteiriça de ter chances de prevenir. O problema está, mais uma vez, em acomodar-se. A gente se acostuma muito fácil às coisas. Se acostuma a ter um apartamento com janela, mas que não abre porque ta emperrada. E porque não abre, decide pôr uma cortina. E porque tem cortina, decide não aproveitar a luz natural e paga mais caro pela conta de luz. Eu posso me acostumar a gastar mais dinheiro, mas nada vai compensar as oportunidades que eu perdi por não ter aberto qualquer brecha pro vento entrar, pros sons provocarem os mais variados efeitos ou pros cheiros ativarem qualquer espécie de memória. Isso tudo só me faz concluir que to pagando mais por menos. Aliás, que nós estamos.
O problema é que as proporções que os eventos tomam não são tão impossíveis de se prever, mas são perfeitamente possíveis de se mascarar e isso inebria, entontece, mas não é fascinante. Por favor, meu Brasil, me mostre os meios e não os fins!
2 comentários:
Muito bom xukita! É nesses pequenos fragmentos que descobrimos a grandeza das mentes freneticamente inquietas dos amigos que, apesar de encarar o mundo com leveza e humor, tem sempre algo de bom a acrescentar ;) Bjo imenso, minha linda. Vou acompanhando de perto e sempre =*
Acho que todos nós ficamos com um minúsuclo pouquinho desse vazio que ficou no peito dessas famílias. Que tragédia! É muito tocante ler nossos pensamentos assim tão bem expressos! Mandou bem xuquita! Xerinho. Lila
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