quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ainda lembro, por K.

Passou-se muito tempo, mas parecia não ter passado tempo algum. Curiosidade pulsante, agora era capaz de constatar tudo como ainda lhe era vivo na memória. Os olhos ainda eram expressivos como da primeira vez em que fora fisgada por eles, de mãos dadas com traços másculos que, derrotada frente à tentativa de resisti-los, ainda lhes tiravam o fôlego.

No entanto, realista como era, a contra gosto admitiu o apagar de detalhes que o tempo traz consigo. Não parecia lembrar-se das mãos longas com clareza ou mesmo do cheiro do perfume, mas lentamente reconheceu-se dona. Não dele, mas da lembrança fiel de mãos, olhos, boca, cheiro e – memória sonora e fotográfica das boas – principalmente das gargalhadas intercaladas com riso sério.

Despretensiosamente, apaixonou-se outra vez pela mesma pessoa como fazem os casais que se reconhecem par por muito tempo. Ainda que os anos houvessem mudado formas e percepções de mundo, o que claramente era o caso, a mudança não parecia ter sido estrutural. Ainda enxergava muito do que não gostava, mas que seria aquele palpitar acelerado se não o aceitar de qualidades e defeitos?

Vivenciar o momento em agridoce dos mais saborosos era lamentavelmente perturbador, mas depois de tudo pronto, estavam ali. Falavam sem parar de amenidades das mais cotidianas e reagiriam de formas das mais receptivas a qualquer coisa dita. Pareciam querer dar boas vindas um ao outro, sem perceberem-se mudos, cheios apenas de amor sofrido e calado.

- Queríamos tanto salvar o outro. Amor é matéria de salvação.

Foi o que me disse Clarice, dada a minha licença poética. 

2 comentários:

Sunflower disse...

E por acaso o senhor passado sabe aonde é o lugar dele?

K..Kaká..Lila..Liloka disse...

Ainda bem que tudo passa, ainda que lento demais às vezes. A boa notícia é que mesmo que as cicatrizes fiquem claras demais, elas tornam-se indolores.